Tiros em Realengo

A mídia destacou o lamentável episódio que ceifou a vida de vários adolescentes dentro de uma escola, no Rio, como o primeiro do tipo, no Brasil.

Um lugar de plantar sonhos, como destacou o Prefeito Eduardo Paes, foi transformado no palco de uma imensa seara de pesadelos, onde inocentes pagaram com suas vidas, o preço de uma tragédia pessoal.

As semelhanças com o “massacre de Columbine”, ocorrido em 1999, nos EUA, são muitas, e levaram especialistas a tentarem entender seus motivos e origens.

Problemas psíquicos do assassino surgiram como o possível principal motivo do desequilíbrio que o levou a perpetrar a chacina e, depois, se suicidar. Poderia ter sido pior, se ele não tivesse sido alvejado, pois, segundo consta, estaria pronto para prosseguir com a mortandade.

Parte significativa desses especialistas concordou que o bullying e uma estranha quietude sempre estão presentes na juventude de assassinos desse tipo.

Bullying, palavra inglesa recentemente importada para descrever o que muitos adolescentes vêm sofrendo desde que o mundo é mundo, vítimas de outros adolescentes, sobretudo na escola, mas também onde se mora, trabalha, nos templos religiosos, ou seja, em qualquer núcleo social onde muito se dita, mas pouco se educa.

A adolescência é um período de extrema fragilidade, em todos os sentidos. Nesse período de transformações metabólicas naturais, que também afetam psicologicamente, jovens procuram autoafirmação, em meio a desafios e ameaças. Não é à toa que, nessa fase, a maioria dos vícios é oferecida e aceita como se fossem “ritos de passagem” para a idade adulta. Também é aí que brucutus e “filhinhos de papais”, que têm mais músculos e financiamento do que cérebro, decidem, em vez de estudar, eleger alguns “cristos” para molestarem. E o fazem com requintes de crueldade: apelidos jocosos, discriminação em atividades sociais e esportivas, humilhação em público e, até, violência física.

A falta de atenção de pais, dos dois lados, e de educadores, além da total ausência de humanidade de seus algozes, torna a vida desses adolescentes um verdadeiro inferno, que muitos temem externar ou pedir socorro, por medo de sofrerem mais discriminação ainda.

Assim, sentimentos terríveis são represados, e ninguém sabe quando e como irromperão. Tudo isso, somado a frustrações sentimentais, numa fase em que a sensibilidade está à flor da pele, pode gerar explosões imediatas ou sequelas por toda vida.

Conheço casos de alunos que se suicidaram dentro de sala de aula, como relatado em polêmica música do Pearl Jam. Ou de outro que, depois de anos de perseguição, resolveu ser pior do que os que o molestavam, para ser aceito em seu “seleto” grupo: a “turma do fundão”. Tempos depois, cometeu um duplo assassinato e se suicidou. Outros, ainda, buscaram “refúgio” em drogas ou fanatismos, político ou religioso.

Nada justifica a triste realidade do enlutado Realengo. Mas quantas vidas já foram anonimamente destruídas pela falta de atenção e apoio, familiar e institucional, prevenindo e identificando contextos semelhantes, não apenas em escolas, mas em qualquer tipo de grupo social?

Faz algum sentido um jovem desejar ou, no extremo, provocar a morte, própria ou de outros?

Então, que essa terrível tragédia sirva, ao menos, para que façamos uma profunda reflexão sobre nossas adolescências, vítimas e algozes, para que saibamos educar nossos filhos e alunos de maneira que este caso, o primeiro do tipo, no país, seja, também, o último!

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