O Brasil vai ser um país rico?

Mailson Ferreira 2

Nos últimos 100 anos, apenas o Japão ingressou no clube dos países ricos, ou seja, os que reúnem três características: (1) renda per capita elevada e bem distribuída, (2) sólidas instituições políticas e econômicas e (3) alto índice de desenvolvimento humano (IDH). Esse índice, elaborado pelas Nações Unidas, é composto de três indicadores: expectativa de vida ao nascer, educação e renda per capita. A Noruega, primeiro lugar no IDH e com renda per capita de 61.000 dólares, é um país rico. O Catar, com a maior renda per capita do mundo, de 99.000 dólares, não é uma nação rica, pois lhe faltam outras características. Em breve, o PIB da China pode suplantar o dos Estados Unidos, mas o país continuará longe de ser rico. Tem renda per capita baixa (8400 dólares), regime autoritário e instituições frágeis.

Em livro de 2009 (“Violence and Social Orders”), Douglass North, John Wallis e Barry Weingast examinaram a evolução humana nos últimos 10.000 anos. Países ricos, para eles, são os que possuem uma “ordem social de amplo acesso” (open access order), a qual tem apenas 150 anos. São 25 as nações que alcançaram esse estágio (15% da população mundial). Fundamental foi banir o uso da violência por grupos armados. A violência se tornou monopólio do estado, como no encarceramento e na desapropriação por interesse social. Para que a violência não vire instrumento de poder, sua utilização deve ser legítima, isto é, segundo a lei e a ética. O governo é controlado pela sociedade, via sistema político e Judiciário. Democracia, competição política, estado de direito, cidadania plena e direito de propriedade integram a ordem social. O estado regula a economia, defende a concorrência e provê educação fundamental de qualidade. Imprensa livre e crença na superioridade do sistema capitalista e no papel do lucro completam o quadro.

Para que o Brasil fique rico, a produtividade terá de crescer a um ritmo sistematicamente superior ao das nações desenvolvidas

O Brasil está na sala de espera do clube. Construímos instituições que inibem ou punem aventuras na economia e na política, protegendo-nos da instabilidade de outros tempos. A democracia se consolidou. O Judiciário é independente e pode julgar e condenar os poderosos. A sociedade não mais tolera a inflação. O país mudou de risco. No passado, podíamos viver ciclos de autoritarismo e de descontrole inflacionário. Agora, o risco é perder oportunidades e crescer pouco por causa de erros de política econômica e por incapacidade do governo de criar o ambiente para o investimento e os ganhos de produtividade.

Estar na antessala do clube é um feito notável, realizado por poucos países, talvez menos do que os 25 desenvolvidos, mas a entrada não está garantida. Podemos ser apenas um candidato eterno. Para que o Brasil fique rico, a produtividade terá de crescer a um ritmo sistematicamente superior ao das nações desenvolvidas. Em última análise, está aí a chave do sucesso da empreitada, o que implica vencer barreiras ideológicas à percepção das vantagens de uma economia de mercado. Exige liderança política para mobilizar a sociedade, em distintos momentos, em prol de reformas que promovam, entre outros avanços, uma revolução na educação, a melhora da qualidade do sistema político e a redução do potencial de corrupção.

Mesmo com o petróleo do pré-sal e outras vantagens, não seremos um país desenvolvido sem transformações ciclópicas. ao longo de gerações. No campo econômico, a lista é vasta: sistema tributário racional, legislação trabalhista moderna, previdência social sustentável, autonomia formal do Banco Central e de outras agências reguladoras, e melhora da infraestrutura, fatores que assentarão os alicerces para o desenvolvimento mais rápido.

A distância que nos separa dos países ricos ainda é muito grande. Como eles continuam a crescer, o alvo é móvel. Atualmente, a renda per capita do Brasil (11.800 dólares) é apenas 25% da americana (48.000 dólares). Segundo projeções da OCDE. poderemos chegar a 40% em 2060, enquanto China e Coreia do Sul alcançarão 60% e 80%, respectivamente.

A tarefa é difícil, mas não podemos desistir. O êxito não virá da oratória vazia de políticos populistas, mas de muito trabalho e de lideranças ao mesmo tempo visionárias e transformadoras.

Fonte: revista “Veja”

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5 comments

  1. João Victor

    Só Japão, e quanto a Coréia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan?

  2. joao batista

    O Brasil é um Pais rico de recursos naturais e miserável no controle dos governantes, puliticos e outros.

  3. Lenine da Silva

    Podemos afirmar sem medo de errar que todos os Países ricos, prosperaram sob um filosofia de sociedade consumista, mercado extremamente demandado, passando por juros proximo de zero e juros reais negativos, crédito ofertado com abundância, mercado sempre positivado, na medidas que CEOs dizem, Brasil é a bola da vez, mercado positivado, porém aonde esta o Problema, e aí podemos afirmar, NORTE e NORDESTE, aí temos que dar salto de desenvolvimento, triplicar o PIB dessa região, sem esse salto de qualidade jamais seremos um País rico no seu todo, até porque ja temos regioes com PIB percapta de País rico

  4. Pedro Mota

    aff, não gostei; daqui 50 anos o brasil não vai estar nem na metade do caminho para ser rico ?

  5. pensadorlivre

    crescer com governos parasitas? sem chance….