Todos no mesmo barco

A presidente Dilma Rousseff definitivamente subiu no palanque. A estratégia escolhida foi de explorar a ideia de luta de classes, em vez de discutir de forma mais aprofundada a agenda econômica para os próximos anos à luz do caminho já percorrido e da necessidade de ajustes.

Vale a pena refletir as chances de sucesso dessa estratégia à luz do atual quadro econômico.

Há sinais de enfraquecimento cada vez mais disseminado da economia, ainda que com diferentes intensidades entre os setores, conforme sinalizado pelos indicadores de confiança dos empresários da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Os empresários estão ficando cada vez menos confiantes, enquanto a situação financeira das empresas se deteriora.

A palavra de ordem é cortar gastos e custos, visando a recuperar as margens no curto prazo, o que não necessariamente contribui para o sucesso da empresa no futuro. Empresas cortando investimentos e gastos associados a ganhos de eficiência não é boa notícia. E os empresários sabem disso.

Há sinais de enfraquecimento cada vez mais disseminado da economia

Porém, não há por ora demissões em massa, apesar da queda de horas trabalhadas. As empresas, por diversas razões, como receio de dispensar mão de obra qualificada e evitar custos na demissão, adiam ajustes.

Como não há espaço para a condução de políticas anticíclicas pelo governo, por causa da inflação elevada, a piora das condições econômicas está provavelmente ainda em curso, devendo causar novos recuos na confiança dos empresários.

A trajetória cadente de confiança acomete a todos: empresários e consumidores. A diferença é que os consumidores estão mais otimistas.

Tomando o item “Condições Atuais”, que compõe o índice de confiança, o abismo é claro. Empresários já caminharam para o campo de pessimismo, com o índice abaixo da barreira de neutralidade de 100 pontos: 97,3 pontos para a indústria e 95,5 para o total de empresários, incluindo indústria, comércio, serviços e construção civil. Enquanto isso, consumidores estão ainda otimistas, com índice de 111,6 pontos. Em outras palavras, enquanto consumidores veem condições correntes ainda positivas, mesmo que moderadas, os empresários enfrentam condições adversas.

É um quadro inverso ao observado praticamente até 2010. Até então os empresários industriais estiveram, grosso modo, mais ou tão otimistas quanto os consumidores. E se as políticas de estímulo logo após a crise global de 2008 animaram a todos, o mesmo não ocorreu diante da insistência nessa estratégia a partir de 2010, que provocou aceleração da inflação, penalizando inicialmente mais as empresas que os consumidores, que continuaram obtendo expressivos ganhos salariais.

Por esse aspecto, apesar da distribuição de renda ainda muito desigual, não haveria muito espaço para explorar a luta de classes, pois consumidores estão pela primeira vez desde 1995 mais confiantes do que empresários. Os ajustes salariais estão mais modestos, porém continuam mais que assegurando a correção da inflação. O trabalhador não parece estar vendo o seu empregador como vilão.

A mensagem dos protestos de rua é que a sociedade reivindica a melhora da qualidade da ação estatal, que por sua vez coloca o Brasil em posição bastante inferior nos rankings mundiais. É a sociedade desconfiando da qualidade do gasto público, apesar da carga tributária tão elevada.

Não foram protestos organizados por centrais sindicais defendendo o fim de demissões ou recomposição salarial com slogans do passado do tipo “fim da carestia” ou “Fora FMI”. O que se observa agora é a reivindicação de serviços públicos de qualidade, além do incômodo com a inflação alta que prejudica a aprovação do governo.

O quadro atual é de convergência do índice de confiança dos consumidores para o patamar dos empresários. A contaminação do consumidor é inevitável. O baixo crescimento ameaça a tendência de melhora da distribuição de renda. Convergência melancólica.

É possível que a estratégia do PT encontre limites para reverter a tendência de queda da aprovação da presidente. Não só porque a deterioração das condições econômicas ainda está em curso, mas também porque a tal “luta de classes” está meio fora de sintonia com o atual momento do país.

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