O Globo, 05 de fevereiro de 2007

A biologia convencional considera o meio ambiente um pano de fundo, um palco em que se desenrola o épico da evolução das espécies. Nesse ambiente se desenvolveram “essas tão elaboradas formas de vida, tão diferentes entre si, mas tão dependentes umas das outras, de modo extremamente complexo. Há grandiosidade nesse modo de enxergar a vida… originalmente soprada sobre algumas poucas formas… de um começo tão simples, infinitas formas de grande beleza evoluíram e continuam a evoluir”, conclui o naturalista Charles Darwin, no encerramento de sua monumental “A origem das espécies” (1859).

Conforme registra o físico Fritjof Capra em “A teia da vida” (1996), a Teoria de Gaia, de James Lovelock, e os trabalhos de Lynn Margulis em microbiologia, combinados em “A regulação biológica da atmosfera da Terra”, de 1974, “expuseram o erro da estreita concepção darwiniana de adaptação ao meio ambiente fixo. Por toda a extensão do mundo vivo, a evolução não se restringe à adaptação de organismos a um meio ambiente fixo, pois o próprio meio ambiente é modelado por uma rede de sistemas vivos capazes de adaptação e criatividade. Portanto, cada qual se adapta aos outros — eles co-evoluem”.

“A vida molda a Terra e a atmosfera, em vez de simplesmente adaptar-se ao meio ambiente. A atmosfera e a biosfera adaptaram-se uma à outra. A atmosfera que respiramos hoje não é um ambiente natural, e sim uma obra de engenharia da biosfera em bilhões de anos. A vida não é abundante na Terra porque havia meio ambiente temperado e rico em oxigênio. Foi a vida que esfriou a Terra e mantém sua riqueza em oxigênio. Nessa visão sistêmica, as florestas manipulam a umidade do meio ambiente. Fazem chover onde vivem, e não simplesmente vivem onde chove”, observa o neurobiólogo Frank T. Vertosick, em “A genialidade intrínseca: a descoberta da inteligência em todas as coisas vivas” (2002).

“No entanto, a evolução do homo sapiens, de nossa cultura e tecnologia, teve e continua a ter enorme impacto sobre a biodiversidade. A destruição em grande escala do hábitat, a degradação da qualidade da água e do solo, a poluição do ar e a perda de florestas tropicais e recifes de coral estão provocando uma devastação global. Com a biodiversidade sob ataque humano implacável, as formas da natureza não são infinitas, nem são poupadas as mais belas”, adverte o biólogo Sean Carroll, em “Infinitas formas de grande beleza” (2005), obra confessadamente inspirada pela brilhante passagem de Darwin.

Segundo Carroll, “é ingenuidade pensar que a ciência pode resolver todos os problemas do mundo, mas a ignorância sobre a ciência, ou a negação de seus fatos, é um convite à catástrofe”. São, portanto, perturbadoras as conclusões do mais importante relatório científico sobre o aquecimento global. Conforme a reportagem de capa da revista “Época” desta semana, “um painel formado pelos mais respeitados especialistas em clima declarou que não há mais dúvida: nosso planeta está esquentando. E por nossa culpa. Algumas conseqüências são catástrofes com proporções bíblicas. Haverá fome, seca, miséria, furacões e enchentes”. Enquanto não formos todos verdes, haverá choro e ranger de dentes.

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