O Banco Central (BC), conforme a Ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) divulgada na semana passada, escolheu o cenário mais otimista. Mas há aqui uma questão. Terá o BC sido convencido pelos números ou teria antes decidido ser otimista e, a partir daí, escolhido os números que coubessem?

Uma dúvida razoável. Tem implicações políticas. Ser otimista, no caso, e bem resumido, significa acreditar que a inflação vai cair sem a necessidade de uma alta mais forte da taxa básica de juros e sem um corte de gastos mais expressivo do governo. Segurar juros e ter espaço para gastar – eis algo que interessa a qualquer governo, muito especialmente ao de Dilma Rousseff.

O que leva a uma segunda questão: estaria o BC de Alexandre Tombini, seu presidente, mais alinhado com a política do governo, a ponto de sacrificar sua autonomia operacional?

O precedente recente do BC é negativo. Em junho do ano passado, quando a campanha presidencial esquentava, o BC interrompeu abruptamente um processo de alta de juros que havia sido anunciado e antecipado por seus próprios documentos.

Na ocasião, o então presidente do BC, Henrique Meirelles, alinhou uma série de dados para sustentar a tese de que a economia brasileira já estava em forte desaceleração e que isso logo levaria à queda da inflação – sem a necessidade de mais altas na taxa básica de juros.

Nasceu daí um bom debate. Poucos, pelo menos em público, levantaram a hipótese de que a atitude do BC havia sido eleitoral – não elevar a taxa básica num momento em que o candidato da oposição, José Serra, tinha no ataque aos juros um dos motes de sua campanha. Dado o excelente retrospecto de Meirelles, a maioria dos analistas procurou o debate técnico.

Algumas consultorias e departamentos econômicos de bancos se alinharam inteiramente com o BC. Uma delas escreveu, em 10/8/10: “Qualquer que seja a decisão do Copom em 1/9/10 – derradeiro aumento da Selic ou nada -, avaliamos que a chance de a conjuntura vir a demandar outra rodada de ajuste significativo na política monetária em 2011 claramente não prepondera. Há vários fatores – como os efeitos defasados do aperto monetário; o efeito contracionista, na margem, da política fiscal; e o reajuste real baixo que se prevê para o salário mínimo em 2011 – que sugerem ser reduzido o risco de a atividade econômica vir a se reaquecer a ponto de colocar em risco o controle da inflação”.

Naquela reunião citada, o Copom aumentou os juros em meio ponto porcentual, para 10,75% ao ano, e indicou que o ciclo de alta estava encerrado. Até julho, acreditava-se, inclusive no próprio BC, que a taxa precisaria subir a 12% para conter o surto inflacionário.

O que aconteceu? A economia brasileira de fato estava desacelerando, mas um caminhão de outros fatores indicava que o aquecimento do consumo continuava forte – como a farra de gastos do governo e de concessão de crédito via bancos públicos – e que a inflação se espalhava, não sendo “apenas” uma circunstância ocasional dos preços exagerados de alimentos.

Ou seja, a visão do BC e de seus aliados, depois de junho, estava equivocada. Era torcida. Estava certa a visão vigente anteriormente, que alertava para o grave descompasso entre consumo maior e produção menor. A inflação fechou 2010 na casa – elevada – dos 6%, continua rodando nesse ritmo e, só pelo embalo, deve subir ainda mais, podendo ultrapassar o teto da margem de tolerância, que é de 6,5% (a meta central é de 4,5%).

Em dezembro, esse mesmo BC, ante a inflação escancaradamente em alta e disseminada, disse que os juros precisariam subir de novo – o que começou a ser feito na primeira reunião do Copom da era Dilma, em janeiro último.

Depois de duas altas, a taxa básica está em 11,75%. E a situação se repete. No mercado, o consenso indica que essa taxa deveria subir para 12,5%, de modo a trazer a inflação para perto da meta só em 2012. E isso se o governo de fato contiver os seus gastos e reduzir os repasses a bancos oficiais, especialmente o BNDES. Ou seja, um cenário com muitas dúvidas.

Pois o que diz agora o BC? Que, de fato, a inflação vai ficar alta na maior parte deste ano, na casa dos 6%, mas que começa a cair no último trimestre, segue caindo em 2012, chegando na meta (os 4,5%, anualizados) apenas no finalzinho desse próximo ano. Isso sem precisar do aperto maior nos juros e confiando que o corte de gastos já anunciado e o ajuste comedido do salário mínimo são suficientes para barrar a “farra fiscal”.

Não é mesmo uma argumentação parecida com a de julho passado? É bem otimista por isso. Acredita que o melhor vai acontecer assim, na manha. Mas hoje é maior a possibilidade de que o governo não cumpra a meta de corte de gastos e que continue estimulando os empréstimos dos bancos públicos. E já está contratado um aumento de 14% para o mínimo em janeiro do ano que vem.

Tudo considerado, o BC está nos dizendo que podemos conviver com dois anos seguidos de inflação a 6% (ou mais) e isso numa economia ainda com muita indexação formal e informal.

Está prevalecendo a tese Mantega: um pouco de inflação não faz mal; vamos crescer, que tudo se ajeita no final. Como em julho do ano passado. E se você é assalariado, anote: qualquer reajuste menor que 6% é perda de dinheiro, inclusive na Tabela do Imposto de Renda.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 14/03/2011

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4 comments

  1. Esta atual mania de todo mundo ficar se comportando como se a politica de juros do banco central fosse o principal instrumento para controlar inflação. Não, eu não sou uma ignorante econômica, sei que este o instrumento básico da política monetaria… mas, desculpa, em um país com o spread que tem o Brasil,caso unico no mundo,onde o consumidor paga altíssimas taxas de juros, não é um aumento de 0,50% na taxa selic que afeta consumo. A inflação não é de demanda interna, a inflação vem dos oligop

  2. 1berto

    O governo não prejudica o consumidor somente por causa da alta taxa de juros, um dos motivos do spread ser alto é a ‘concorrência’ do governo como tomador de empréstimo, se o governo reduzisse o seu apetite diminuiria a atratividade do melhor cliente dos bancos que para não ficar com dinheiro parado teriam que reduzir o spread…

  3. Paulo

    Hoje eu comprei um litro de leite no supermercado a R$2. Em novembro paguei R$1,68 pelo mesmo produto no mesmo supermercado. Isso sim é assustador.

  4. João

    Exatamente, 1berto. Porém, quem acha que os bancos estão muito tristes com esse arranjo só pode ser muito ingênuo. Basta verificar que as pessoas mais ricas do Brasil são banqueiros – ou pessoas que possuem firmes ligações com o estado. E tem gente que acha que o problema do Brasil é falta de regulação – a mesma regulação que inibe a competição e permite a manutenção de mono/oligopólios. Tudo com dinheiro dos impostos (do BNDES), em prol de uma economia forte, é claro.