O Globo, 27 de março de 2006 Ninguém está livre de se olhar no espelho e achar que a imagem está bonita e elegante, quando na verdade, de acordo com os padrões reinantes, está um desastre. Escolhemos uma roupa esportiva para uma ocasião e, quando chegamos no local, descobrimos que ela está mesmo é esculhambada. Mesmo quem diz não ter qualquer vaidade, se olha no espelho e se agrada do que vê, acha que está, pelo menos, correto, mas pode ser que não esteja. Da mesma maneira, por mais inteligente e vaidoso de sua própria inteligência, ninguém está livre de seguir um raciocínio brilhante, construir uma obra intelectual de respeito, e não perceber que as premissas estavam erradas ou que a realidade nega o resultado do raciocínio. Falando em vaidades físicas e intelectuais, das quais também poucos podem se dizer livres, me vem à mente a agradável e sedutora figura de Fernando Henrique Cardoso. Eu o admiro, mesmo não compactuando de seus ideais. Ele foi, inegavelmente, um dos melhores e mais bem preparados presidentes que o Brasil já teve e, sob seu comando, num governo democrático, é inegável também que o país progrediu. A era FHC, entre outros avanços, fortaleceu instituições com efeitos de longo prazo, que a história ainda vai mostrar. FHC, como mostram a matéria e a entrevista da última “Veja” sobre seu esperado livro — “A arte da política: a história que vivi” — é e se considera de esquerda, uma esquerda moderna, que, segundo ele, não é tola, nem fiel a anacronismos. Por que ele é de esquerda? Ele responde: porque defende valores como a justiça social e a igualdade. E porque se irrita com um problema do capitalismo que é a desigualdade. E afirma: “É da natureza do capitalismo.” Tudo na matéria e na entrevista, e acredito que no livro, é muito interessante: mostra mesmo a força e a honestidade intelectual de FHC. E é por isso que sua explicação de porque é da esquerda democrática soa tola e anacrônica — equivocada, mesmo. Primeiro: onde exatamente o Estado, tomando a si funções crescentes e, em nome delas, custando parcela cada vez maior do produto da nação, promoveu justiça social e igualdade? Ou será que estamos falando de justiça social e igualdade na pobreza? Onde estão os exemplos concretos de crescimento, igualdade e justiça social providos por um Estado com papel central na sociedade? Além disso, o que é esse negócio de justiça social? O que seria a justiça não social? E por que igualdade seria justiça? De fato, não é. Se eu trabalhar o dia inteiro, de sol a sol, e der metade de meu salário para pagar o seguro desemprego de meu vizinho, que assim receberá do Estado o mesmo que eu, isso é justo? Afirmar que o capitalismo gera desigualdade, algo que está em sua essência, é o mesmo que afirmar que todos os homens são absolutamente iguais em todas as suas características, e quando introduzimos este sistema chamado de capitalismo, as diferenças começam a surgir. E é claro que isso nunca foi e nunca será verdadeiro e a História já mostrou que todas as formas de tentar enquadrar os seres humanos em modelos de igualdade impuseram grande sofrimento aos povos. Mas não é só isso: há na afirmação de FHC a certeza de que o Estado é quem corrige essa irritante natureza do capitalismo de gerar desigualdade. Ele, supostamente, retira renda dos ricos, na forma de impostos, e a distribui para os pobres na forma dos mais diferentes serviços e também na forma de dinheiro, como nos programas assistencialistas. Depois de tantos anos fazendo isso, com o Estado chegando a tirar quase metade da renda dos brasileiros para gerar igualdade e justiça social, inclusive por oito anos sob o comando de FHC, era para o Brasil ser um dos países mais igualitários e socialmente justos do mundo. Mas não precisa ser muito inteligente para ver que não foi isso que aconteceu. O Estado brasileiro cresce sem parar, tirando impostos que pesam muito mais no orçamento das classes mais baixas, para criar classes privilegiadas de funcionários públicos bem remunerados, com todos os direitos e sem muitos deveres, de aposentados com ricas pensões, de empresários que recorrem ao BNDES, de alunos ricos de universidades públicas. Digamos que há dois países, cada um com duas pessoas. No primeiro, um morador é pobre, não trabalha, vive de esmolas — das pessoas e do governo — e o outro trabalha e tem um padrão de vida médio. No outro, os dois trabalham, um tem padrão de vida médio e o outro é bem mais rico. A desigualdade pode ser maior no segundo, mas onde é que as pessoas vivem melhor e a vida é mais justa? O problema a ser atacado, então, não é a desigualdade e, sim, a pobreza. E uma última pergunta: quem distribui mais renda — um capitalista que pega seu próprio dinheiro, que poderia estar rendendo juros sem risco em qualquer lugar do mundo, e investe numa empresa, contratando chefes de família de várias classes sociais ou um novo departamento num ministério que, usando parte dos impostos retirados da sociedade, contrata funcionários e mais funcionários com direito e poder de usar verbas e mais verbas vindas de impostos tirados da sociedade?

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