Tomai e bebei, este é o ‘volume morto’

No Dicionário Houaiss, água-viva, assim mesmo, com hífen, pode designar tanto a “água que brota de uma fonte ou nascente e corre em grande quantidade” como aquele bicho marinho “de corpo mole, gelatinoso e transparente, e tentáculos providos de células urticantes, capazes de provocar sérias queimaduras em seres humanos”. A primeira serve para matar a sede. A segunda pode matar a gente. Palavras são traiçoeiras: a mesma expressão, com o mesmíssimo hífen, nomeia coisas tão díspares quanto o líquido que nos faz viver e o cnidário que nos faz morrer. Palavras, como frases, têm sempre mais de um sentido, inclusive essa. Palavras traem, acusam e fogem; não se pode pegá-las com a mão, não se pode prendê-las, matá-las. Não dá para comê-las. Principalmente, não há como bebê-las.

Mesmo assim, uma palavra sonora, bem posta e inspiradora ajuda a melhorar o encanto que imaginamos estar presente no que bebemos ou comemos. Do mesmo modo, uma palavra repugnante atrapalha tudo. É o que se passa com a água nossa de cada dia. A despeito da multiplicidade de significados, qualquer paulistano, hoje, há de preferir beber água-viva a beber água-morta. Nada mais óbvio. Só um louco lançaria uma marca de água mineral, por exemplo, com o nome “água-morta”. Não daria certo, por melhor e mais benéfica que fosse a composição química da substância engarrafada. A simples ideia de que estamos a sorver em goladas vigorosas uma entidade “morta” provoca em nós uma repulsa instintiva. “Água-morta” parece sinônimo de “água estragada”, algo cujo prazo de validade venceu na outra encarnação. “Água-morta” seria uma logomarca de mau gosto, ou mesmo de mau agouro. Quem dela bebesse teria um quê de canibal. Ou, pior ainda, de urubu, de hiena, de verme. O homem civilizado não se vê como um verme, não gosta de imaginar que se abastece de matéria em franco apodrecimento.

Todo esse introito se fez necessário para que se possa começar a dizer do incômodo de cada habitante desta cidade com essa notícia de que está condenado a beber do “volume morto” do tal Sistema Cantareira. Não, não se trata de criticar a Sabesp. Os guardiões da imagem do governo paulista e da campanha de recondução do governador ao Palácio dos Bandeirantes podem ficar sossegados. A Sabesp, que não tem culpa da seca, também não tem culpa se algum mortal, sabe-se lá quando, deu nome a esse negócio aí de “volume morto”. Não é culpa da Sabesp. Aliás, pobre Sabesp. Deve ser mesmo desagradável ter de ofertar litros e mais litros de “volume morto” para a população lavar a louça, tomar banho, escovar os dentes e matar a sede. A culpa não é dela. A língua prega essas peças em todos os falantes, mesmo nas mais altas autoridades da mais ilibada reputação. É assim que é.

“Volume morto” é de matar. Por vezes soa como “arquivo morto”. Parece algo empoeirado, embora líquido. Os especialistas explicam que se trata de uma água que requer tratamentos muito mais complexos para chegar até a casa dos comuns, posto que teria permanecido por muito tempo em pontos mais abissais (o adjetivo não é bom), em fossas (a palavra é péssima) submersas e, portanto, estaria bem mais suja do que as águas mais superficiais.

O problema dessas explicações minuciosas é que elas não aliviam, mas agravam o desconforto do freguês. Piores ainda são as discussões a respeito dos danos ecológicos que seriam causados pelo esvaziamento do tal “volume morto”. Apesar do nome – “morto” -, esse “volume” seria vital para o ecossistema. Uma vez tirado de lá, comprometeria uma certa “vida de fundo”, acarretando estragos irreparáveis ao ecossistema hídrico. Embora pareça uma contradição em termos, o “volume morto” seria vital – não para nós, clientes da Sabesp, mas para o ambiente em que nossa água descansa antes de ser consumida.

Quanto mais falam em “volume morto”, mais complicado e intragável vai ficando o mundo à nossa volta

Os acalorados debates ecológicos aprofundam o sentimento de culpa dos fregueses da Sabesp – não a culpa da Sabesp, é claro, já que a Sabesp, como temos visto na televisão, em caudalosos comerciais, não tem culpa de nada. A Sabesp, aliás, além de ser vítima de São Pedro, esse oposicionista enrustido, agora é também vítima da panfletária flor do Lácio.

Quanto mais falam em “volume morto”, mais complicado e intragável vai ficando o mundo à nossa volta. O pessoal encarregado já se deu conta disso e percebeu que, para quem representa o governo ou a Sabesp, o melhor é se fingir de… morto. Tanto que uns já abandonaram a expressão “volume morto” e começaram a falar em “reserva técnica” (pelo menos não há morte implicada aí). Acontece que a expressão “reserva técnica” também é traiçoeira e tem seus inconvenientes. Faz lembrar a reserva do tanque de gasolina, o que soa como um alerta de que o combustível vital vai acabar. Não só isso. Quando pensamos na reserva do tanque de gasolina, pensamos imediatamente naqueles sujeitos que gostam de falar que o carro está “andando no cheiro” (o cheiro da gasolina seria tão forte que daria conta de mover o motor). A lembrança é nauseante. O cliente da Sabesp, crente de que água não tem cheiro, começa a se perguntar se o “volume morto” não teria um aroma pestilento, já que precisa de todas aquelas etapas de purificação. O cidadão sente tonturas.

Por isso a terminologia da “reserva técnica” não ajuda grande coisa. O pessoal encarregado muda de assunto, volta ao ponto morto e, novamente, se finge de morto. Enquanto isso, o paulistano pensa no Mar Morto, que, embora bíblico, não tem água potável. Tenta mudar de bacia e se lembra do Rio das Mortes, que lhe parece trágico demais. Desesperado, em busca de um pensamento positivo, ele diz a si mesmo que no jogo de buraco quem está na frente compra “o morto” e ganha nova vida. A esperança, porém, logo se evapora. Resignado e mudo, ele abre a torneira, toma do fluxo fantasmático, póstumo e cadavérico e faz o seu bochecho matinal.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 29/5/2014

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