Totalitarismo eleitoral

Pobre país, refém da mentira e da dissimulação política. Sem qualquer escrúpulo, os cidadãos são abertamente ludibriados, fazendo da democracia uma luta rasteira em favor de um projeto hegemônico de poder. Não há ética; não há moral; não há lei. Nesse ambiente deletério, o crime passa a ser politicamente aceitável, transformando larápios em heróis de uma causa corrupta. Procurando absolvição, setores da sociedade gostam de dizer, com ares de superioridade pedante, que os políticos não os representam, como se o Brasil não fosse uno e indivisível.

Ora, ao invés de festivas palavras vazias, a nobreza apolítica seria muito mais útil se viesse com coragem e intensidade para o jogo político real, abandonando o comodismo inerte e a indiferença estanque. Enquanto perdurar a inação dos bons, o governo dos maus será uma continuidade permanente. Aqui, não há milagres; não adianta olhar para os céus e pedir às estrelas. Política séria se faz com os pés no chão, com olhos para as mazelas do homem e crença absoluta nas infinitas potencialidades do espírito.

Enquanto perdurar a inação dos bons, o governo dos maus será uma continuidade permanente

Objetivamente, estamos a viver uma espécie de “totalitarismo eleitoral”: um sistema de usurpação da soberania popular, de comercialização dos partidos, de financiamento criminoso de campanhas políticas e ostensiva oficialização da mentira. Ao fim e ao cabo, o voto é transformado em instrumento de consagração de corruptos, corruptores e estadistas de bordel. Temos, em síntese, um mecanismo de falseamento doloso da democracia, de aberta deslegitimação das urnas e flagrante manipulação da vontade eleitoral.

Ao se transformarem em fúteis empresas eleitorais, os partidos, em vez de políticos, passaram a produzir apenas rasos mercadores do poder. O Brasil está à venda; basta conhecer as pessoas certas e pagar a comissão de intermediação. Os outrora ferozes críticos da privatização aceitam hoje qualquer negócio; nos contratos bilionários, é só cobrar por dentro e receber por fora. Sim, a mídia golpista tentará estragar a festa. Mas quanto vale mesmo aquele contrato de publicidade de empresas estatais?

Fonte: Zero Hora, 5/3/2015

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1 comment

  1. Sinceramente, esperava uma reflexão mais aprofundada sobre o tema.