É um exercício complicado prever como deve se comportar a atividade econômica neste ano e no próximo. Neste ano temos eleições e o acirramento de posições é uma realidade, com o governo mantendo uma política econômica a nosso ver errada, no próximo temos ajustes, o que, por certo deve afetar na demanda agregada e no crescimento.

Com isto, os indicadores seguem erráticos, subindo em alguns meses e despencando em outros. Pelas palavras da articulista Miriam Leitão, de O GLOBO, é como uma “gangorra industrial”. Em 2013, por exemplo, a indústria avançou em cinco meses, recuou em outros cinco e se manteve estagnada em dois. Neste ano, começou bem, crescendo 2,2% em janeiro, para depois empacar em fevereiro e recuar em março.

Este recuo de março (0,5% contra fevereiro) foi impactado por variados fatores, como o momento de indefinição de cenário que vivemos com a proximidade das eleições, os movimentos erráticos na gestão econômica, a crise cambial na Argentina e, também, pelo menor número de dias úteis, já que o Carnaval aconteceu em março neste ano, ao contrário de 2013 quando foi em fevereiro. Não poderíamos nos esquecer também da perda de competitividade em curso, com o câmbio volátil, assim como o processo de desindustrialização, com o setor industrial perdendo peso na composição do produto nacional. Já está próximo a 20% do PIB, sendo que no passado chegou a mais de 40%.

Diante destes fatos, façamos uma análise da indústria neste primeiro trimestre de 2014, tentando enxergar uma possível trajetória futura. Cabe destacar que agora em março foi alterada a metodologia do indicador, melhor explicada ao fim deste Panorama.

Análise do desempenho em março – Como já dito, a indústria acabou “rateando” em março, recuando 0,5% contra fevereiro e 0,9% contra o mesmo mês do ano passado. Cabe observar que houve uma revisão nos indicadores de janeiro e fevereiro, passando de 2,9% para 2,2% e 0,4% para estagnação, respectivamente. Cabe ressaltar também que com a nova metodologia também houve revisão na produção industrial nos últimos anos desde 2003.

Em todos estes anos, no entanto, esta mudança aconteceu mais na margem, em mais ou menos até 0,3 ponto percentual. O maior ajuste, aliás, aconteceu em 2013, com a produção passando de 1,2% para 2,3%, mas ainda devendo ser revisada em mais dois ou três pontos, para 2,5/2,6%.

Neste ano, a produção cresceu apenas 0,4%, com os bens intermediários recuando 0,6% e os bens de capital 0,9%. Os primeiros, com maior peso na indústria (depois da nova metodologia, passaram de 57,7% para 59,7%), continuam “de lado” em 2014. Nos primeiros três meses do ano, cresceram 0,2%, 0,4% e 0,1%, respectivamente, contra o mês anterior, não sinalizando recuperação mais consistente no restante do ano. Lembremos que este setor representa o fornecimento de insumos entre empresas, não tendo obtido bons resultados nos últimos anos, -1,6% em 2012 e 0,8% em 2013. Isto se explica, em parte, pelo impacto das importações de insumos, em especial, da China, e a fraca demanda das indústrias produtoras. Neste primeiro trimestre, o maior tombo veio do setor Bens intermediários para defensivos agrícolas, recuando 9,6%, impactados pelas importações chinesas. Outro setor em forte queda foi veículos, recuando 7,4%, e têxtil, o primeiro, pela crise cambial na Argentina, o segundo, também, pelas importações chinesas.

Outro fraco desempenho vem do setor de bens de capital, recuando 0,9% no ano, sendo um indicativo preocupante para a economia nos próximos meses, pela forte aderência deste segmento ao ritmo dos investimentos e crescimento. Neste, os piores desempenhos ficaram com o fornecimento de bens de capital para a Indústria, reforçando esta crise, e para o setor de transportes. Lembremos que ao longo de 2013, com a mudança de motores nos caminhões, este segundo segmento registrou uma forte alta, como podemos observar na tabela a seguir. Talvez tenha ocorrido o fim deste ciclo de reposição dos novos motores.

Cabe ressaltar também o desempenho do setor de bens duráveis, recuando 2,5% no mês contra o anterior, 4,6% contra o mesmo do ano passado, crescendo 3,4% no ano e 3,9% em 12 meses. No fraco desempenho mensal, destaque para o recuo da indústria automobilística (-2,9% contra fevereiro), afetada pela crise cambial argentina, com as exportações de automóveis recuando mais de 32%, e pelo fim da isenção fiscal, retraindo a demanda interna. Pesquisa da ANFAVEA, divulgada na semana passada, mostrou que os estoques já passavam de 45 dias em março/abril, bem acima do limite crítico de 30 dias. Com isto, o governo estuda a adoção de um pacote de medidas de crédito para estimular o setor. Contra o mesmo mês do ano passado, esta indústria recuou 13,6% e no ano 6,3%.

Em contrapartida, no entanto, com a proximidade da Copa do Mundo, a produção de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos, como televisores LCD, na chamada “linha marrom”, avançou 21,2% no ano e 9,6% contra o mesmo mês de 2013.

Perspectivas – Para os próximos meses acreditamos que esta volatilidade da indústria deva se manter, dada a indefinição política e a crise cambial na Argentina. Em abril e maio, com o setor automobilístico ainda impactado por estes fatores e o fim da isenção de IPI, as estimativas indicam um desempenho ainda fraco. Devemos estar atentos, também, ao desenrolar da crise energética, com o racionamento como algo inevitável. Em compensação, é possível uma pausa do BACEN na política de juros com a produção industrial fraca e a inflação mais controlada (IPCA foi a 0,67% em abril).

Para o segundo semestre, uma retomada é prevista. Ao final do ano, a indústria, depois de crescer entre 2,5% e 2,6% em 2013 e 2,3% em 2012, deve desacelerar para 1,5%, com ganhos marginais para o PIB em função da nova metodologia, dentre outros fatores. Como o PIB da indústria representa algo próximo a 20% do PIB nacional, seu fraco desempenho acaba influenciando, na margem, o PIB (neste ano, previsto para crescer em torno de 1,8%). Os setores com maior importância para a formação do PIB, como construção civil e produção de energia elétrica, não são apurados pelo PIM-IBGE. Além disto, cabe ressaltar que ambas as pesquisas do PIB e do PIM não possuem uma correlação tão direta pelo fato das suas pesquisas serem diferentes: a produção industrial mede a produção física e o PIB considera o valor adicionado, o que distorce na análise.

Nova Metodologia– Foram alterados os pesos dos setores da indústria e a ponderação da pesquisa, elevados o número de produtos pesquisados, as unidades locais e as regiões analisadas. A ponderação do índice de produção industrial foi alterada, de 1998/2000 para 2010. As unidades locais passaram de 3700 para 7800 e nas regiões foi incluído Mato Grosso. Aumentou o número de produtos pesquisados, de 757 para 805, e retirados outros. Neste caso, saíram os produtos pouco usuais, reflexo da mudança de hábito dos consumidores, como tubos de imagem, amianto, produtos de edição impressa, cortadores de grama, além de alterada a apuração do sal de cozinha, não mais analisado pela indústria extrativa, mas agora pela de alimentos. Foram incluídos produtos como tablets e silicone, além de produtos de maquilagem para lábios (batom, brilho), de beleza ou de maquilagem preparados (bronzeador, protetor solar). Com o dinamismo da indústria de armas na pauta de exportações, foram incluídos revólver e pistolas, cartuchos, balas e suas partes.

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