Em russo, espanhol e inglês – para que todos pudessem compreender – havia, no aeroporto de Havana, a seguinte mensagem: “Cuba é uma nação livre, soberana e independente. O governo é democrático, revolucionário e comunista. Aqui não há fome, exploração ou injustiça social. Não admitimos prostituição, drogas ou qualquer outra forma de depravação inerente ao capitalismo. Numa sociedade em que todos são iguais, não ocorrem furtos, roubos ou corrupção”.

Isso me foi contado por entusiasmados colegas de faculdade na década de 1970. No mundo universitário, então, o marxismo imperava. Pobre de quem não compartilhasse o seu credo: era discriminado e banido do convívio acadêmico. Perguntava-me eu: por que motivo aqueles que pregam a inclusão social são os primeiros a tentar excluir?

Quem exercia o poder no Brasil eram os militares e seus simpatizantes. E a nós, estudantes e mestres, restava defender ideias opostas. Para tanto o marxismo vinha muito a calhar. Até mesmo eu, na época, me considerava um socialista light. Sempre que afirmava isso, logo aparecia alguém para me desmentir: “Você não passa de um liberal”. Mais de duas décadas e meia após a redemocratização do País, a antiga polarização acabou. O pessoal da faculdade tinha razão: eu sempre fui mesmo um liberal. O problema é que não me dava conta disso.

Agora, à luz da História, a gente percebe que nada daquilo fazia sentido. Nem os militares brasileiros se comportaram como radicais de direita, nem os irmãos Castro, em Cuba, dirigem um governo de esquerda. De um lado e de outro, as ditaduras não são mais do que isto: ditaduras.

Acredito que aquela mensagem no aeroporto de Havana – se de fato existiu – tenha sido retirada. Tudo o que lá estava afirmado aconteceu ao contrário. Aos olhos dos europeus e norte-americanos, o regime cubano é fascinante somente para os intelectuais e para os governantes populistas da América Latina.

Por falar em governos populistas, durante os oito anos do nosso, apenas foram reproduzidas as fórmulas adotadas pelos governos militares. Nacionalismo, desenvolvimentismo, crescimento econômico, política externa “independente”, nada disso é novidade. Algumas formulações políticas e econômicas, aliás, remontam aos tempos de Getúlio Vargas, são da década de 1930.

Nos lugares onde foi implantado, o socialismo falhou. Depois da queda do Muro de Berlim, então, nem sequer a visão marxista da sociedade sobreviveu.

Os rebeldes de minha época de estudante são, atualmente, mais adultos. Acreditam ter amadurecido. Dizem-se “pós-modernos” e “politicamente corretos”. São os frequentadores mais assíduos dos “jantares inteligentes”, tão bem caracterizados pelo filósofo Luiz Felipe Pondé. Vale a pena ler os seus livros. Como arguto observador e crítico de costumes, ele vai além: “Toda essa gente afirma ser dotada de “consciência social”, defende a “sustentabilidade” (neologismo) e critica as grandes empresas e a sociedade por tudo de mal que existe no mundo”. Pondera ainda o filósofo: “Todos se veem como heróis que estão salvando o mundo”. E de que modo isso é possível? Cada um deve fazer a sua parte. Mas como fazê-lo? Simples. Sentem-se todos moralmente absolvidos por “reciclar o lixo e andar de bicicleta”.

A culpa, como sempre, é atribuída aos outros. Perversa é a sociedade, não nós… Somos inocentes porque estamos denunciando e criticando tudo isso.

Por falar em licença moral, muita coisa estranha vem ocorrendo em Brasília. Como me ensinava Odon Pereira, o meu primeiro professor no jornalismo: “Absurdo não existe. O que chamamos de absurdo é uma ordem das coisas que desconhecemos”. Tradução: não obstante a complexidade de um nó, se uma corda tem uma ponta, procure, porque vai achar a outra.

Acontece o seguinte: como foi bem percebido quando ocorreu o escândalo do mensalão (2005), não há por que redimir os petistas. Deus só perdoa os arrependidos. E o pessoal do Partido dos Trabalhadores não se arrepende de nada.

Os nossos bravos sindicalistas e intelectuais – nos quais o sangue socialista ainda ferve nas veias – se dispõem a tudo, desde que, ao final, prevaleça a “causa justa”. Vale roubar, matar ou até morrer, se for necessário. Eles não ficam com a consciência pesada? Não. Acreditam piamente que moralidade “é coisa de pequeno burguês”.

O nosso “ex-presidente proletário” ganhou fama, nos meios políticos, de transigente e negociador. Faz qualquer coisa para manter o poder. Para lograr tal intento e eleger a sua sucessora ele cedeu diversos órgãos governamentais ao comando dos demais partidos. E, pelo que se vê agora, o negócio foi feito de porteira fechada, ou seja, cada um cuida de si.

Dotação de verbas, alocação de recursos e nomeações para cargos de comando, tudo isso se deu por critérios exclusivamente político-partidários. Todo mundo sabe o resultado disso: incompetência e corrupção.

À medida que vão estourando os escândalos, a atual presidente se vê obrigada a agir. O seu mandato ainda se está iniciando e ela não pode macular a sua imagem com uma reputação de fraqueza, miopia e complacência. Isso compromete até mesmo a viabilidade do retorno de seu antecessor.

Enquanto isso, o que se ouve lá pelos lados do Planalto Central é que, dia desses, um indivíduo estacionou o seu veículo bem em frente da rampa de certo palácio. A o sentinela se aproximou: “O senhor não pode parar aí! É por aqui que passam as autoridades!”.

“Não se preocupe, seu guarda. Eu tranquei o carro!”.

Font: O Estado de S. Paulo, 12/08/2011

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