Empreendedorismo 4.0 precisa transformar criatividade
em inovação

"O presente desalento com a economia brasileira pode ser um convite a mais inovação"

O cubano Paco, de 60 anos, é motorista de uma operadora turística em Havana. Formação acadêmica? Engenharia naval. Durante a Guerra Fria, estudou graças à cooperação educacional que a então União Soviética prestava a Cuba.

Em aulas traduzidas de um professor russo para o espanhol, aprendeu a estruturar barcos quebra-gelo. Seu livro-texto era um manual soviético dos anos 40. Paco aprendera uma tecnologia ultrapassada, sem pertinência para Cuba.

O espanhol José Alonso tem 28 anos. Cresceu na classe média de Valência. Estudou ciência da computação. Estagiou na IBM. Teve uma “start-up pontocom” que não durou muito. Fez mestrado nos EUA. Voltou à Espanha há dois anos. Está desempregado. Sua hora de programação custa no mercado espanhol US$ 50. Possíveis empregadores recorrem a free-lancers no Vietnã ou Paquistão por US$ 5 a hora.

Argentina e Uruguai têm educado sua população há mais de cem anos. Ainda assim, começaram o século 21 em pior forma do que o 20. Formaram cidadãos cultos, politicamente conscientes. Mas economicamente pouco competitivos.

A trajetória tortuosa da globalização está criando um duro desafio para a ideia de educação como panaceia aos problemas de um país. Hoje, além da pertinência e atualidade, é um certo enfoque dos conhecimentos que capacita à competitividade no século 21: a educação para o empreendedorismo.

Não devemos entender, como se faz muito no Brasil, que empreender é tão somente sinônimo de abrir uma franquia ou mesmo ter seu próprio negócio.

Empreendedorismo é a ação individual, com vistas à agregação de valor, que almeja quebrar a inércia de uma determinada entidade (empresa, governo ou Organização Não Governamental) mediante atuação essencialmente inovadora.

A rotina é o pior inimigo da empregabilidade. Tudo o que pode ser “rotinizável” corre o risco de transformar-se em matéria-prima para algoritmos que delineiam os contornos da rotina e a traduzem em software.

E daí substituir — com vantagens — o trabalho humano. Assim, carreiras lineares do começo da vida adulta ao embranquecimento dos cabelos, dentro ou fora de uma única empresa, serão cada vez mais raras.

Esse é um dilema para o Brasil. O grande empregador da economia é o governo em seus vários níveis administrativos. Combatemos o mal presente do desemprego com a hipertrofia dos quadros estatais.

Para engendrar essa nova educação para o empreendedorismo, é cada vez mais estratégica a relação umbilical escola-empresa. Esta proximidade conceitual, com a ênfase nos aspectos empreendedores, deve ser acompanhada da proximidade física, com a estruturação crescente de unidades educacionais em regiões geograficamente densas em empresas de base tecnológica, os chamados “clusters”.

É assim que agregaremos nos mais variados programas de escola secundária e universitária a técnica e visão empreendedora que permita a médicos, contadores, engenheiros e químicos abordar cada desafio com inovação.

O Brasil nesse aspecto é paradoxal. As principais características do empreendedorismo brasileiro são, felizmente, a criatividade — e, infelizmente, a baixa sustentabilidade de novos negócios.

Poucos povos são tão criativos e trabalham tão bem o tema da adaptação quanto o brasileiro. Por outro lado, os negócios no Brasil têm de deparar-se com a assustadora carga tributária, uma legislação trabalhista que inibe o empreendimento e um ambiente de negócios que arrasta o país para posições vexatórias nas edições do Relatório de Competitividade Global.

Baixo crescimento agrega-se a esse quadro de dificuldades. Com a deterioração das perspectivas brasileiras, torna-se mais evidente a necessidade imperiosa das reformas microeconômicas. Quando essas se concretizarem — e isto tem de ser feito em caráter de urgência — os empreendedores brasileiros estarão mais próximos de harmonizar sua capacidade de competir globalmente.

Uma “grande estratégia” de desenvolvimento passa por livrar o empreendedor brasileiro da “camisa de força” microeconômica dos tributos, das amarras trabalhistas e da burocracia hiperreguladora.

Também compreende movimentos mais amplos, como a diminuição da parcela ocupada por dispêndios do setor público, em benefício do aumento do investimento brasileiro em ciência & tecnologia como percentual de nosso PIB.

Para fazer esse omelete, é necessário quebrar alguns ovos no curto prazo. Não há exemplos internacionais de países que mudaram de paradigma e ascenderam na escala global de desenvolvimento sem sacrifício em nome de seu futuro. Um país que, como o Brasil, poupa e investe menos de 20% de seu PIB claramente não está tendo um caso de amor com o amanhã.

É essencial reorientar esforços públicos para a educação fundamental e permitir às universidades maior interação com empresas, com o mundo do fazer. Se nossa atenção pública em educação continuar tão centrada no ensino superior, prolongaremos essa situação em que temos, como hoje, tantas dificuldades de transformar conhecimentos que emanam da universidade em produtos passíveis de gerar patentes e ser levados ao mercado.

O efeito da aproximação universidade-empresa seria triplo. Além do impacto positivo na universidade, as empresas também estariam mais encorajadas não apenas a destinar parcelas maiores de seus orçamentos corporativos à pesquisa & desenvolvimento. Simplificaríamos também as estruturas governamentais brasileiras orientadas à gestão do ensino superior — que acabam por subtrair recursos das políticas públicas que poderiam ter maior foco nas camadas mais fundamentais e formativas das etapas educacionais.

O presente desalento com a economia brasileira pode ser um convite a mais inovação. A melhor definição de empreendedorismo tem que ver com a tentativa de quebra de inércia, com o objetivo de gerar mudanças positivas, mediante atuação inovadora. E portanto dentro dessa definição cabe empreendedorismo empresarial ou também aquele que se realiza no interior de instituições governamentais ou entidades sem fins lucrativos.

No ecossistema competitivo da Indústria 4.0, o grande desafio brasileiro é realizar a transição de uma sociedade reconhecidamente criativa para uma tecnologicamente inovadora.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 05/07/2016.

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