Vivemos tempos estranhos. A economia global segue sustentada pela expansão dos emergentes, com os desenvolvidos ainda encalacrados por desajustes fiscais e custos sociais crescentes. Nestes, a retomada da economia ainda é uma incógnita, com dúvidas surgindo sobre sua capacidade de resposta diante da eminente retirada das medidas de estímulos fiscal e monetário. Muitos consideram como uma forte possibilidade a ocorrência de um duplo mergulho global entre este ano e o próximo.

Na Europa, o “teste de estresse” veio dentro do esperado pelo mercado, com cerca de 7 bancos reprovados ou precisando de capitalização – cinco espanhóis, um grego e um alemão. Isto, inclusive, vem a corroborar com uma lenta e ainda errática retomada do crédito global, entre janeiro e março passado tendo chegado a US$ 700 bilhões, o melhor em 18 meses, mas ainda bem inferior aos patamares obtidos nos anos anteriores à crise de 2008. Além disto, o equacionamento dos passivos fiscais nos países mediterrâneos segue ocorrendo, mesmo com as emissões e rolagens a custos mais altos.

Nos EUA, de novidade, o chairman do Fed Ben Bernanke tratou de dar uma “baixada de bola” para os “otimistas de plantão”, ainda se mostrando bem cauteloso em relação à sustentabilidade da economia norte-americana, que se confronta com “perspectivas atipicamente incertas”.

Segundo ele, o Fed está preparado para a adoção de novas medidas de estímulo monetário. “Mesmo com o Fed mantendo um planejamento prudente para a retirada da política monetária expansionista, também reconhecemos que as perspectivas econômicas continuam atipicamente incertas. Continuamos preparados para adotar mais medidas, conforme necessário, para impulsionar a volta da utilização total do potencial produtivo de nosso país em um contexto de estabilidade de preços.”

Na verdade, os indicadores divulgados, tanto na Europa como nos EUA, são ainda por demais contraditórios, não mostrando uma retomada uniforme em todos os segmentos. Alguns até mostram boa musculatura, mas outros continuam de lado ou mesmo sem força para retomar o crescimento. O consumo das famílias continua muito enfraquecido pelo alto endividamento e desemprego, o que não dá impulso aos canais de crédito da economia, não gerando negócios para os bancos. Com isto, um ciclo vicioso acaba se espalhando pelas economias, até porque o setor público se encontra muito limitado pelos fortes endividamentos do passado.

No Brasil também se observa uma economia desacelerando, mas também de forma heterogênea. Enquanto que eletrodoméstico e automobilístico se encontram carregados de estoques, outros convivem com a escassez de recursos, precisando de importações, como no caso da construção civil, com falta de cimento e outros insumos.

Na verdade, o que se observa é que depois do pico do primeiro trimestre, quando a economia cresceu 9% contra o mesmo do ano passado, um processo de acomodação vem ocorrendo. Isto pode ser explicado pelo fato de que no início do ano a economia operou bem acima do seu potencial em função dos efeitos dos vários estímulos fiscais e monetários adotados, assim como por um movimento de antecipação de consumo, diante do fim destas mesmas medidas.

No segundo e no terceiro trimestre a economia deve ter dado uma boa parada de arrumação, com o crescimento, de 2,4% devendo passar de 0,8% a 1% contra o trimestre anterior, o que deve perfazer um crescimento anualizado em torno de 7%. Neste cenário, a inflação também vem cedendo, puxada pelo recuo dos preços dos alimentos, embora uma cautela se faça necessária neste momento. Isto porque os preços agrícolas vivem variações cíclicas, em função de fatores climáticos, sazonais ou mesmo por mudanças abruptas nos mercados internacionais.

Isto nos leva a acreditar que nada garante que os preços se mantenham em baixa até o final do ano. É neste contexto que o Copom optou por elevar a taxa de juros em 0,5 ponto percentual, a 10,75% anuais, abaixo da previsão da maioria no mercado. Por outro lado, continua preocupante a trajetória das contas públicas, o que deveria ter repercutido na decisão da autoridade monetária. Tal variável, no entanto, acabou ignorada, dando ao mercado uma sensação de contaminação política na decisão do BACEN.

Estejamos, então, atentos às próximas reuniões do Copom neste ano, a seguinte ocorrendo em setembro, 45 dias depois da de quarta-feira (dia 21). Nesta, é possível uma elevação da taxa de juros, mas ainda é cedo se ter claro em que intensidade. Tudo dependerá da evolução da inflação e dos indicadores de atividade. Só é importante lembrar que, sazonalmente, a economia costuma se aquecer mais neste período, em função da proximidade com as festas de fim de ano. Por enquanto, estamos projetando a taxa de juros em 11,75% anuais ao fim deste ano.

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