Transparência de coluna

Já lhe aconteceu, querido leitor, esperar uma coisa e lhe ocorrer uma outra? Às vezes, o exato oposto do imaginado? Se você jamais passou por isso, ou você tem muita sorte ou não é humano.

Como todo mundo, eu tenho sofrido muito com essa dissonância entre o esperado (a fantasia, mas nem tanto) e o acontecido (a realidade, mas nem tão forte). Com nove anos, meu Tio Silvio me convidou para caçar onças no Pantanal. Era oficial do Exército e campeão de tiro e, assim que viu o sorriso entusiasmado no meu rosto infantil, perguntou sério que tipo de arma eu preferia usar. Com um ar casual, escolhi a pistola Colt 45 e deixei para ele o velho revólver Smith & Wesson 38. Com tudo combinado, aconselhoume: faça sua mala discretamente e, pelas quatro e meia da manhã, esteja de pé. Seguiremos para o Galeão, onde nos espera um avião da FAB. As onças ficam lindas refesteladas ao sol das cataratas.

Não dormi. No quarto-dormitório, ao lado dos meus quatro irmãos e Tia Amália, rolei na cama até ouvir Tio Silvio acordar. Em meio à obscuridade, vesti minha roupa de viagem e peguei a maleta. Ia saindo, quando dei com Tia Amália sentada na cama me olhando severamente.

— Onde você pensa que vai? — Vou caçar onças no Pantanal com Tio Silvio! — Que caçar onças, que nada! Você vai é voltar para a cama. Esse Silvio tem cada uma…

Foi o fim da minha carreira como caçador e o começo de minha trajetória como usuário das frustrações desta vida. Naquela manhã, eu desconfiei que esse descalabro entre o querer e o ter, o pensar e o acontecer, iriam me acompanhar para sempre. A transparência era a exceção que confirmava a regra de um ideal que raramente acontece.

Isso que chamamos de felicidade.

Mesmo assim, até hoje eu penso que os outros vão seguir os meus roteiros e fantasias. Um amigo me disse que essas desarmonias explicavam o meu encantamento pelo mundo. Só com muito amor no coração é possível continuar acreditando na transparência desse mundo sujeito ao peso do mal-entendido e dos múltiplos motivos de cada um dos seus sócios.

Os homens fazem sua historia — dizia Marx — mas não nas circunstâncias que escolhem. Freud repetiu e investigou essa enigmática intransparência: a que jaz, como um zumbi, entre os nossos projetos conscientes e nossos impedimentos inconscientes.

E o pior é quando eles chegam sem Tia Amália, lá do fundo de nós mesmos. Como um outro intrusivo.

Ou uma câmara oculta, reveladora de nossas falcatruas. Não é Arruda? Não é veteranos mensaleiros do PT?

Congratulo-me com a maioria dos ministros da Suprema Corte, que por quase unanimidade decidem manter o Arruda no seu spa, digo, prisão, que seus defensores chamam de masmorra. Quando assim decidem, eles se comportam como magistrados e, muito mais que isso, como brasileiros! E é como tal que todos temos que agir.

Pois como profissionais podemos tirar vantagem de tudo, mas seria isso ético quando vestimos nossas camisas de brasileiros?

A transparência começou quando o macaco nu desceu da árvore e entendeu que só poderia sobreviver se inventasse um mundo de fantasia e sonho, de música, poesia e ritual, de verdade e, preferencialmente, de ilusão. Drogado pelos deuses, leis, livros, fórmulas, fábulas e mitos que ele próprio inventou, o bicho-homem tem sobrevivido a tudo. E tem heroicamente ultrapassado as fontes de frustração que ele inventou para si mesmo.

No Reino de Janbom, onde, como mostrei na semana passada, até os milagres viram problema, a política engendra síndromes de onipotência, policiadas contudo por alguns meios de reproduzir a realidade.

Das fitas aos vídeos que os mostram roubando nosso dinheiro e, de quebra, revelam como o tal estado centralizado tem como projeto enriquecer e aristocratizar seus altos servidores e jamais servir ao público e à sociedade.

Desmascarado pelas câmeras, o onipotente nega o inegável.

Uma história do Peru colonial, narrada pelo cronista Garcilaso de la Vega (1539-1616), antecipa o caso Arruda e outras psicopatologias do mesmo teor.

Ei-la: Um conquistador chamado Solar, residente em Los Reyes (Lima), tinha uma propriedade em Pachacamac. O capataz desta propriedade enviou ao patrão, por meio de dois índios, dez melões — frutos das primeiras sementes plantadas no Peru — e uma carta. Quando entregou a encomenda aos índios, ele os advertiu que não comessem nenhum melão porque, se o fizessem, a carta descobriria e os denunciaria. No meio da viagem, um dos índios sentiu o desejo de provar a fruta do amo: queria saber o seu gosto. Seu companheiro, temeroso, disse que não deveriam fazer isso porque a carta iria contar. O primeiro colocou a carta por detrás de um muro — pois assim ela não poderia ver o que eles estavam dispostos a fazer e, sem vê-los, ela nada poderia fazer.

Lembro que índios do Peru não conheciam o que eram as letras. Imaginavam que as cartas que os espanhóis escreviam uns aos outros eram espécies de mensageiros ou espias que diziam por meio de palavras o que encontravam pelo caminho.

Comido o primeiro melão, decidiram que era conveniente emparelhar as cargas. Para ocultar o delito, comeram outro melão. Chegados a Lima, apresentaram oito melões ao capataz.

Este, logo depois de ler a carta, perguntou pelos melões que estavam faltando. Como os índios negaram a falta, ele assinalou que mentiam pois a carta dizia que haviam sido entregues dez melões e que, portanto, eles haviam comido dois. Ao ver que o amo lhes dizia o que haviam feito escondido não discutiram com ele e saíram dizendo que era com muita razão que os espanhóis eram chamados de bruxos, pois sabiam grandes segredos.

Uma câmera oculta, reveladora de falcatruas: não é Arruda? Não é mensaleiros do PT?

Fonte: Jornal “O Globo” – 10/03/10

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