A atitude do Conselho Monetário Nacional (CMN) que, em vez de definir, embaralhou as metas de inflação, refletiu rigorosamente a opinião do presidente Lula.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico (21/06), Lula havia dito que era favorável a uma meta de 4,5% (para 2008 e 2009), pois o Brasil já fizera muito sacrifício para chegar até esse nível baixo de inflação.

Os jornalistas lembraram, então, que a inflação corrente estava em 3,5% e as expectativas em torno do 4%, de modo que uma meta de 4,5% indicaria que o governo optara por “inflacionar”.

Foi aí que Lula usou aquela tática de flexibilizar teses. Disse: “se mantivermos uma inflação de 4,5% ou 4% por dez anos, será uma benção”. Ou seja, a meta de 4,5% não é assim para cravar. Pode não ser. E ainda acrescentou: “você pode ter 4,5% ou 4% como meta mas reduzir (a inflação) a 2%”.   

Os três integrantes do CMN, ministros Guido Mantega e Paulo Bernardo, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, seguiram esse roteiro. Confirmaram para 2008 e definiram para 2009 a meta de inflação de 4,5%, com tolerância de dois pontos para cima e para baixo – a mesma desde 2005.

Com isso, se fixou uma meta central acima da inflação corrente e das expectativas (entre 3,5% e 4%), de modo que, na prática, se conferiu ao BC brasileiro a tarefa de elevar a inflação. Como isso se situa entre o ridículo e o absurdo, os membros do Conselho se apressaram a explicar que a meta verdadeira era outra. Qual? A do mercado.

Se a expectativa é de 4% para os próximos dois anos, o governo acha isso bom e o BC vai perseguir esse objetivo, não a meta oficial de 4,5%.

Trapalhada. No regime de metas de inflação, uma das funções do BC é coordenar as expectativas e fazê-las convergir para a meta de inflação que ele, BC, persegue. Mudando a direção, isso significa que o BC brasileiro vai ficar refém do mercado. Se, por alguma crise local ou internacional, o mercado mudar a expectativa para 5%, essa passa a ser a nova meta do BC?   

Uma pena. Uma das características do regime de metas de inflação é, deve ser, a transparência, a clareza de objetivos e meios do BC. Vinha funcionando bem. O correto, agora, seria fixar a meta em 4%, reduzir a margem de tolerância e indicar a direção para um nível de inflação abaixo dos 3% ao ano, padrão mundial.

Em vez disso, introduziu-se na política monetária uma das piores características do modo Lula de governar: a dificuldade de tomar a decisão, de arbitrar.

Outro exemplo do mesmo mal está ocorrendo nas negociações em torno da Organização Mundial de Comércio. O governo está colocando a culpa do impasse nos EUA e na União Européia.

É verdade que EUA e UE são osso duro de roer, mas a diplomacia brasileira padece de um bloqueio próprio. De um lado, temos o agronegócio exportador, globalizado, competitivo no mundo todo, favorável à maior abertura possível no comércio mundial. Junto com ele, diversos outros setores industriais igualmente modernos e abertos.

De outro, porém, encontramos largos setores da indústria que não querem ouvir falar de abertura das importações. Mais os ideólogos do MST e da agricultura familiar que também não querem nenhuma abertura pró-agronegócio.

O ponto principal da negociações na OMC é a abertura do comércio agrícola, com a redução das distorções provocadas nos mercados mundiais pelos subsídios e proteções concedidos pelos países ricos, EUA, União Européia e Japão.

Mas seria ingenuidade supor que seus governos conseguiriam reduzir aquelas proteções sem receber algo em troca – e esse algo é redução de tarifas industriais por parte dos países emergentes, inclusive, e muito especialmente, o Brasil.

Quanto entregamos nessa troca? Na dúvida entre as pressões locais, sem uma definição do governo, a diplomacia brasileira é levada a assumir uma posição difícil, que é exigir o máximo de abertura no comércio agrícola, em troca de pouco ou muito pouco em indústria.

Outro exemplo: há dois grupos completamente incompatíveis dentro do governo, o do pessoal que toma conta da energia e o pessoal do meio ambiente. Muitos dizem, inclusive Lula, que é bom ter opiniões diferentes para abrir as opções. Pode ser, mas quando leva a decisões, não a paralisias e trapalhadas.

Publicado em O Globo em 28 de junho de 2007

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