Três visões sobre três tragédias

São três fatos que têm a mesma gênese e consequências que até podem diferir na quantidade de vítimas – mas têm como ponto comum o fato de encontrar pela frente pessoas inocentes que pagam com a vida pela estupidez alheia.

O mais antigo dos três aconteceu um ano atrás, na Noruega, quando o atirador Anders Behring Breivik matou 77 pessoas em Oslo e na ilha de Utoya.

Outro aconteceu no último fim de semana no estado americano do Colorado, quando um idiota chamado James Holmes assassinou 12 e feriu dezenas de pessoas que assistiam à pré-estreia do último filme da série Batman.

Finalmente ontem, “ativistas” que se escondem atrás do anonimato e de um grupo de fanáticos, o Al Qaeda, espalharam o terror por 19 cidades do Iraque e deixaram atrás das explosões de suas bombas um rastro de 111 mortos.

Nenhuma das pessoas que morreram nas três tragédias estava engajada em ações contra seus assassinos. Foram colhidas de surpresa enquanto trabalhavam, se divertiam ou participavam de atividades pacíficas em torno da causa em que acreditavam – uma causa que inclui a paz e a democracia, como era o caso dos jovens que estavam no encontro do Partido Trabalhista, na Noruega.

Além da revolta pelas mortes e da covardia dos assassinos, o que chama atenção nesses episódios é o tratamento que os criminosos e suas vítimas recebem na imprensa internacional – inclusive a brasileira.

O norueguês Breivik é mostrado como um fanático e suas vítimas, como pessoas que deram a vida por uma causa nobre.

O americano Holmes foi descrito pelas agências internacionais como alguém de “olhar perdido e triste” e suas vítimas, como integrantes de uma sociedade cujos valores as expõem a esse tipo de circunstância.

Os interesses econômicos muitas vezes atropelam o bom senso

Os iraquianos que morreram, por sua vez, perdem importância diante de mais uma reação da Al Qaeda, que, pela visão predominante, não luta pela destruição do Ocidente (conforme os próprios fanáticos estão cansados de afirmar), mas contra a ocupação do Iraque pelas tropas americanas que invadiram o país. É como se o destino das vítimas se justificasse pela ideologia de seus algozes.

A esta altura, deve ter leitor se indagando por que motivo escrever sobre um tema como esse num jornal dedicado a economia – e, ao escrever, por que deixar de fora o conflito que já custou milhares de vidas na Síria.

Ali, em que pese o fato de a guerra civil expor inocentes ao fogo cruzado, existe um conflito declarado que teve início com a revolta popular contra uma ditatura ridícula e sanguinária como qualquer outra ditadura (seja ela de direita, de esquerda ou do que quer que seja).

O mundo tem procurado se opor e já teria conseguido avanços mais significativos se alguns governos liderados pela Rússia e pela China (dois dos Brics, diga-se de passagem) não tivessem se oposto a uma intervenção. Isso significa que os interesses econômicos muitas vezes atropelam o bom senso.

Nos outros casos, a questão da economia seria mais difusa se não fosse pelo fato de a democracia (até prova em contrário) florescer apenas sob o regime capitalista. E ter na liberdade seu principal primado. Liberdade que inclui o direito à indignação.

Fonte: Brasil Econômico, 24/07/2012

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