Tribos tecnopolíticas

Os fluxos de poder transfiguraram-se. O ideal romântico de revolução não faz mais parte das aspirações. O debate político não é o dos grandes sistemas. Por décadas, uma dicotomia superficial antagonizou, como macrosoluções, o liberalismo “terra de ninguém” a um socialismo sufocante. No meio, o capitalismo cartorial.

Ao contrário do que se poderia imaginar como efeito das redes sociais, as agendas propositivas e críticas estão mais locais. Sabe-se o que quer e como fazer no seu bairro e cidade. Menos, porém, numa unidade federativa ou país. Muito menos no mundo. Vivemos a emergência de tribos tecnopolíticas.

Além desse caráter de proximidade “epidérmica”, há a questão da política como espaço de defesa da voz de afinidades. Queda dos discursos programáticos. Fabricação de candidatos a partir do marketing tecnológico e viral de empatia. As redes sociais, dado seu caráter instantâneo e superficial, ajudam nessa “efemeridade”.

Em eleições aos mais variados níveis testemunhamos o êxito de candidatos dos taxistas, surfistas ou de grandes torcidas de futebol. São as afinidades que turbinam “amigos” no Facebook ou “seguidores” no Twitter.

Especialistas estão ganhando de generalistas. No mundo do conhecimento e do trabalho, isso se manifesta na verticalização do saber e em aumento de produtividade. Mas no nível pessoal isto delineia pessoas cada vez mais unidimensionais. Hesitantes em ultrapassar as fronteiras do mundo do trabalho e promover uma socialidade “além-função”.

As novas tecnologias aproximam. Isto se faz para o bem e para o mal. A proximidade desvenda identidades, mas também realça diferenças, sobretudo culturais. Combustível para os conflitos contemporâneos conforme a – ainda atual – formulação de Samuel Huntington sobre o “Choque entre Civilizações”.

As fronteiras tornaram-se mais porosas. O Estado-Nação, que sustenta sua existência na dualidade interno-externo, vê-se desorientado com sua vulnerabilidade física, macroeconômica e cultural.

Suas delimitações são vazadas tecnológica, financeira e informacionalmente, o que produz novas sínteses – por vezes enriquecedoras, por vezes fragmentárias. Geram bandeiras de tradições, que quando empunhadas com tolerância, devem ser bem-vindas num mundo que se quer plural.

As tribos, porém, como bem conceitualiza o grande sociólogo Michel Maffesoli, vão oferecer um totem, um religar (a bem dizer, uma religião), além do mundo imediato do fazer. Daí o culto do corpo, as aglomerações em torno de megaeventos musicais e esportivos.

O interesse, ou cimento social, das tribos se potencializa com as Tecnologias da Informação. Seus rituais e “agendas” se disseminam. Nesse contexto pode-se pertencer a várias tribos, o que sublima os efeitos da especialidade e faz surgir uma “transtribalização”.

Há a prevalência do local e do imediato na vida política. Mas, se reconhecermos a falência dos postulados totalizantes, há espaço para uma nova edificação de objetivos estratégicos. As pessoas querem moldar um futuro melhor. Ainda que seja por uma nova política.

Fonte: Brasil Econômico, 26/04/2011

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