Trogloditas de esquerda

As eleições presidenciais de 2010 se aproximam, e cada potencial candidato sobe o tom populista dos discursos. Cada um deles luta para ser o mais generoso nas promessas com os recursos alheios extraídos à força pelos impostos. Recentemente, o presidente Lula comemorou o fato de que, pela primeira vez, não haverá nenhum candidato de direita. Antes, segundo o presidente, o nível dos debates era ruim por conta dos “trogloditas de direita”. Não obstante a complicada questão de definir essa tal direita, o presidente está certo num aspecto: há mesmo um monopólio esquerdista nas eleições. Mas, ao contrário do que ele pensa, não há novidade nisso.

De fato, o Brasil tem sido dominado por políticos que, de forma geral, poderiam ser categorizados no espectro esquerdista da política. Se considerarmos esquerda como a linha ideológica que prega mais “igualdade social”, em contraponto ao liberalismo, então parece evidente que a política nacional é dominada pela esquerda. Não há partido político com bandeiras claramente liberais, defendendo o livre mercado, a propriedade privada e o lucro contra o vago conceito de “justiça social”. Ao contrário, cada partido luta para conquistar a imagem de bastião do “tudo pelo social”.

Os conceitos de esquerda e direita podem gerar muita confusão. Particularmente, prefiro separar os grupos entre coletivistas e individualistas. Os coletivistas colocam algum ente abstrato como fim, e passam a encarar os indivíduos de carne e osso como meios sacrificáveis em nome deste “nobre” fim. Como exemplo, basta pensar nos nacionalistas, socialistas e racistas, cada um desses encarando o coletivo como a finalidade em si, seja a nação, a classe ou a raça. Por outro lado, os individualistas tratam cada indivíduo como um fim em si, que deve ser livre para seguir suas próprias preferências, contanto que não invada a liberdade alheia. Individualistas não aceitam colocar o indivíduo abaixo desses entes coletivos, como peças descartáveis em nome do “bem geral”.

Quando se trata de economia, os coletivistas defendem planejamento central, ou seja, a concentração de poder no governo, enquanto os individualistas pregam a propriedade privada e as trocas voluntárias do livre mercado. Quando se trata de convívio em sociedade, os coletivistas acreditam na engenharia social, enquanto os individualistas acham que cada um deve ser responsável por sua vida, sem ser tratado como um incapaz que necessita da tutela do governo. Ora, partindo da premissa que a esquerda representa melhor a mentalidade coletivista, fica fácil constatar que o Brasil tem predominância esquerdista faz tempo no campo das ideias.

Qual o partido que defende a redução da intervenção estatal na economia? Qual partido prega abertamente as privatizações das estatais que servem como verdadeiros cabides de emprego e moeda de trocas políticas? Qual partido pede menos controle governamental na vida dos cidadãos, deixando-os em paz, inclusive para errar nas suas escolhas? Qual partido rejeita a ideia de que cabe ao governo nos proteger de nós mesmos? Qual partido condena a analogia paternalista de que cabe ao governo cuidar do povo como um pai cuida de um filho? Qual partido entende que devemos ser livres para consumir aquilo que quisermos, assumindo a responsabilidade por nossos atos? Qual partido enaltece o papel do lucro na prosperidade de uma sociedade? Qual partido garante o direito à propriedade privada contra bandoleiros e invasores de terras, chamados eufemisticamente de “movimentos sociais”? Qual partido propõe a flexibilização das leis trabalhistas? Qual partido prega o federalismo, a descentralização do poder hoje concentrado em demasia em Brasília?

A lista de perguntas poderia continuar, mas a conclusão já salta aos olhos: no Brasil, todos os partidos abraçam, em diferentes graus, bandeiras coletivistas. O Índice de Liberdade Econômica, calculado pelo The Heritage Foundation, coloca o Brasil entre os últimos países em grau de liberdade. Os obstáculos criados pelo governo ao livre mercado são gigantescos. A carga tributária é escandinava, e os serviços são africanos. A burocracia é asfixiante. As “conquistas trabalhistas” encarecem o capital humano, que, pela péssima educação, não tem qualificação adequada, reduzindo sua produtividade. O excesso de leis arbitrárias aumenta a insegurança dos negócios. A morosidade do Judiciário prejudica o “império da lei”. A enorme presença do Estado na economia atrapalha o funcionamento do mercado. Em suma, falta liberalismo e sobra intervencionismo estatal no país.

Nada disso é recente. No fundo, a própria ditadura militar foi também bastante intervencionista na economia. Geisel, por exemplo, foi o criador de centenas de estatais, hoje adoradas pelos petistas. Durante o governo Collor, atualmente aliado do governo Lula, alguma mudança ocorreu, principalmente em direção à maior abertura comercial. No entanto, o confisco da poupança não tem nada de liberal. O governo FHC experimentou algumas reformas liberalizantes também, mais por necessidade de caixa que por simpatia ideológica. Mas câmbio fixo, financiamento de ONGs ligadas ao MST e introdução de leis racialistas não têm absolutamente nada de liberal.

Os atuais pré-candidatos mais importantes são todos defensores desse modelo que concentra no governo o poder de controlar a economia e nossas vidas. Nesse aspecto, são todos “conservadores”, pois querem apenas perpetuar o modelo atual, conservar o status quo. O “neoliberalismo” é um fantasma que existe somente na mitologia da esquerda nacional. Na prática, ele nunca nos deu o ar de sua graça. Os liberais simplesmente não estão representados em nenhum candidato para 2010. A política nacional foi totalmente dominada pelos “trogloditas de esquerda”.

Fonte: Revista Voto

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1 comment

  1. cesar ramos

    Eu esperava isso há algum tempo e, embora sinta muita pena e dor pelo nosso país, e uma grande indignação contra certas violências ou baixarias, que vão além do inaceitável, estou pouco surpreendido ou perturbado interiormente… É necessário que a nação, que nos últimos 34 anos tem esquecido o que é o despotismo burocrático e militar o prove de novo.
    TOCQUEVILLE cit. RODRÍGUEZ, R. VÉLEZ : 119