Tudo muda em 2018

A morte da velha política em 2017, sob a guilhotina da Lava-Jato, é o nosso mais importante episódio de aperfeiçoamento institucional desde a redemocratização e a convocação da Assembleia Constituinte. A independência do Ministério Público e do Poder Judiciário foi ferramenta decisiva para garantir a integridade das investigações e o fim da impunidade em um sistema político degenerado pelo dirigismo na economia. Sabemos agora de tudo. E esperamos cada vez mais impacientes pelas condenações, perdas de mandato e impedimentos de candidaturas das criaturas do pântano político.

Por isso a opinião pública informada considera insultante provocação e descarada tentativa de intimidação qualquer reencaminhamento de uma “lei contra abuso de autoridade” exatamente por quem abusou da autoridade no exercício de funções públicas e desfruta de indecorosa impunidade em foro privilegiado. A legislação em causa própria em meio ao lamaçal da corrupção transforma o grito de “morte à velha política” em tema incontornável nas eleições de 2018.

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A “direita” brasileira afundou com a redemocratização por estar associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar. A “esquerda” brasileira afunda agora com a morte da velha política por estar associada à roubalheira, ao colapso do crescimento econômico e à insegurança nas ruas de uma decrépita Nova República. A “direita” hegemônica governou por duas décadas, e a “esquerda” hegemônica por três, ambas com um modelo econômico dirigista desastroso para o desenvolvimento social e político do país. O baixo crescimento e a corrupção sistêmica marcaram a transição do capitalismo de Estado do regime militar para um capitalismo de quadrilhas sob obsoleta e despreparada social-democracia.

Sabemos que estão associados o dirigismo na economia e a corrupção na política. A opinião pública sabe hoje que de um lado estão os defensores de um establishment degenerado, e de outro lado os que exigem mudanças rumo à Grande Sociedade Aberta em terras brasileiras. Essa cosmologia de aperfeiçoamento das instituições de uma democracia emergente é hoje mais importante do que as obsoletas disputas entre “esquerda” e “direita”, conservadores e progressistas, liberais e socialistas. Tudo muda em 2018.

Fonte: “O Globo”, 06/11/2017.

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