Turbinar as Américas

Se o Brasil estiver procurando um bom lugar para dar um cavalo de pau em sua política externa, vai uma dica: comece pelas Américas.

A Europa é mais do que uma realidade forjada no passado e na geografia. Em meio a recorrentes solavancos, é um projeto de integração em movimento.

Apesar de histórico de ressentimentos, potências asiáticas – como China, Coreia do Sul e Japão –, estão cada vez mais interdependentes. A região, que em breve contará com novo banco para infraestrutura, emerge como palco privilegiado do capitalismo contemporâneo.

A África, esquecida tempos atrás, ostenta a economia continental que mais cresce. É também a região mais impactada pela recepção de investimentos chineses oriundos da nova projeção global de Pequim.

Uma atuação de liderança do Brasil na OEA poderia relançar o diálogo e elevar a cooperação no continente

Já no âmbito do continente americano, o que mais impressiona é a ausência de qualquer iniciativa de monta. Deixamos de negociar, há mais de dez anos, uma área de livre comércio da Patagônia ao Alasca.

No campo da segurança internacional, o TIAR, Tratado Interamericano de Assistência Recíproca, figura apenas como item de museu da imaginária cooperação hemisférica durante a Guerra Fria.

Outra vítima do fraco diálogo continental é a OEA. À semelhança de ONU e OMC, a Organização dos Estados Americanos encontra-se numa encruzilhada. Enfrenta duplo desafio: ineficiência e má vontade de Estados-membros.

O método de trabalho em que tudo tem de ser aprovado por consenso atravanca a eficácia de sua governança. Apesar de seus muitos defeitos, a OEA confirma lógica válida também para outras instituições multilaterais. O mundo é ruim com elas; pior sem elas.

A OEA ajudou na resolução de conflitos e construção institucional na América Central nos anos 90. Seu desempenho como órgão de supervisão eleitoral em todo continente é impecável. Sua Comissão Interamericana de Direitos Humanos é referência para entidades congêneres no mundo todo.

Nos últimos anos, porém, a OEA parametrizou-se por uma indesejada dualidade.

Por um lado, o crescente desengajamento dos EUA em assuntos hemisféricos. Tal desinteresse acompanha-se do pivô para a Ásia-Pacífico de suas prioridades estratégicas.

Por outro, o esvaziamento da OEA liderada pela Venezuela bolivariana e seus aliados de ocasião. Isso se deu em paralelo à criação de plataformas, como a UNASUL e a CELAC, cuja principal caraterística é a profusão retórica puerilmente anti-Washington.

Essa inoperância da OEA é exemplificadora de um mal maior que afeta as relações interamericanas. Mais especificamente, fere o potencial cooperativo de seus dois mais importantes atores, também as duas maiores democracias do Ocidente: Brasil e Estados Unidos.

Hoje, a maior economia latino-americana – Brasil – exporta US$ 25 bilhões ao ano para os EUA. A China vende anualmente aos norte-americanos US$ 450 bilhões.

A OEA elege novo Secretário-Geral em 2015. Uma atuação de liderança do Brasil na organização poderia relançar o diálogo no continente.

Turbinar a cooperação nas Américas é do interesse de todo o continente, e sobretudo do Brasil.

Fonte: Folha de S. Paulo, 17/10/2014

RELACIONADOS

Deixe um comentário