A aprovação de uma vasta maioria — nada menos que 64% dos entrevistados pelo Datafolha aprovam sua interferência no governo Dilma — legitima a atuação de Lula nos episódios políticos recentes e confirma que a percepção generalizada é a de que o governo Dilma não passa de um interregno ditado pela legislação brasileira, que impediu que Lula disputasse um terceiro mandato consecutivo.

A solução mal ajambrada encontrada pela presidente Dilma Rousseff para sair da crise provocada pela demissão de Palocci é uma tentativa de dar marca própria a um governo que parece refém de dois agentes políticos, o próprio ex-presidente Lula e o PMDB.

O discurso de posse da ministra Ideli Salvatti no posto de coordenadora política do governo ressaltou um insuspeitado lado negociador, que até agora era tido como inversamente proporcional ao seu mais conhecido e público espírito guerreiro, que identifica em um adversário político o inimigo a ser derrotado.

Menos mal que as palavras tenham sido escolhidas com o cuidado de quem sabe que o que se teme em sua atuação é o contrário do que ela deveria ser no comando das relações institucionais do governo, e pelo menos no discurso a ministra Ideli mostrou-se pronta a desconstruir a imagem que dela tem a maioria dos políticos.

Ato contínuo, demitiu o segundo homem do ministério, um adversário político seu dentro do PT de Santa Catarina, para demonstrar que afabilidade tem limites.

O episódio da saída da Casa Civil de Antonio Palocci afetou a credibilidade da presidente Dilma, mesmo que a avaliação geral de seu governo continue dentro dos mesmos níveis anteriores, em torno de 50%.

Eles revelam, no entanto, o mesmo quadro que encerrou a eleição de 2010: um país dividido entre os que apoiam o governo e os que o rejeitam, de maneira mais radical — apenas 10% dos entrevistados, mas número em crescimento —, ou desconfiam dele — 38% o consideram apenas regular.

Esse índice regular, por sinal, pode ser computado como positivo ou negativo, dependendo de quem leia a pesquisa, ou dos critérios técnicos que variam de instituto para instituto.

São eleitores, no entanto, que na teoria estão à disposição da oposição. Se levarmos em conta que 60% dos entrevistados consideram que o episódio Palocci prejudicou a imagem da presidente, e só um terço aprova seu comportamento durante a crise, teremos aí uma base para atestar que sua figura de líder saiu maculada da primeira crise que enfrentou.

Para 57%, Dilma conhece, sim, a lista dos clientes de seu ex-ministro. Essa convicção aumenta à medida que cresce o nível financeiro dos ouvidos: 67% na faixa entre cinco e dez salários, 80% entre os acima de dez salários.

A indecisão da presidente no episódio marcou os eleitores: na pesquisa anterior, 79% dos ouvidos achavam Dilma uma pessoa decidida, hoje este número é de 62%. Até a inteligência e a sinceridade da presidente estão colocadas em dúvida pelo episódio: eram 9% os que a achavam pouco inteligente, hoje já são 20%, enquanto chega a 22% o número de pessoas que a acham insincera.

A insegurança do eleitorado também aumentou nos últimos meses: 51% acreditam que a inflação continuará a subir, e apenas 33% acreditam que o poder de compra vai subir.

Se juntarmos essas desconfianças com o entusiasmo com que veem a intervenção de Lula nas ações do governo, temos uma mistura explosiva num governo que tem dentro de casa dois partidos se digladiando pelo poder e insatisfeitos com as decisões da presidente, algumas vezes mais pelas virtudes reveladas por suas decisões do que por defeitos identificados pelos fisiológicos dos dois partidos.

O controle do apetite da base aliada, por exemplo, é uma boa iniciativa da presidente Dilma, assim como seu comportamento sóbrio até o momento, que, contrastando com o narcisismo de Lula, havia produzido um ambiente político mais relaxado no país até a crise envolvendo Palocci — que proporcionou a explicitação das indecisões da presidente e a atuação desembaraçada de Lula.

A carta que enviou ao expresidente Fernando Henrique, pela comemoração dos seus 80 anos, é um exemplo de civilidade que ela já havia dado ao convidá-lo a participar, com outros ex-presidentes, de um almoço em homenagem ao presidente dos EUA, Barack Obama.

Assim como se recusou a comparecer ao almoço, também até o momento Lula não se dignou a enviar os cumprimentos ao seu antigo aliado político e amigo, que a política distanciou.

Mas as palavras de Dilma têm sentido mais amplo que a pura protocolar homenagem ao aniversariante ilustre.

Ela, em poucas linhas, desconstrói toda uma estratégia política montada em muitos anos de embate entre PSDB e PT, atribuindo a Fernando Henrique o que nem mesmo seus aliados tiveram a coragem de admitir nas campanhas eleitorais, no pressuposto equivocado e mesquinho de que elogiá-lo tiraria votos.

A presidente Dilma Rousseff elogiou por escrito: “(…) o ministro-arquiteto de um plano duradouro de saída da hiperinflação e o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica. Mas quero aqui destacar também o democrata. O espírito do jovem que lutou pelos seus ideais, que perduram até os dias de hoje. Esse espírito, no homem público, traduziu-se na crença do diálogo como força motriz da política e foi essencial para a consolidação da democracia brasileira em seus oito anos de mandato”.

Ao lado do reconhecimento público, por atos a presidente Dilma vem fazendo uma revisão de conceitos, aceitando a privatização como a melhor solução para a modernização de nossa infraestrutura, especialmente as estradas e
os aeroportos do país.

Sepulta assim anos de mistificação política petista, parecendo querer superar a dicotomia em que nossa política está ancorada, talvez para buscar um governo eficiente e moderno que a possa libertar da tutela lulista.

Fonte: O Globo, 14/06/2011

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