Domingo, 4 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Um caso para o oráculo de Delfos

O mundo financeiro e político assiste, com inegável e acurado interesse, pelo menos nas últimas duas semanas, a uma verdadeira novela grega. Mas ela se desenrola com menor estardalhaço há meses, se não anos. Agora que se aproxima de mais um desfecho cheio de suspense, mas não definitivo, vem produzindo inconclusivo e por vezes acalorado debate sobre de quem é a culpa dos erros, quem poderia ou deveria remediá-los e como pode ou deve, a Grécia, retornar à estabilidade e retomar algum curso de desenvolvimento econômico.

Nesse debate, a corrente de economistas ou de meros “torcedores”, de pensamento ou tendência ortodoxa, não se cansa de jogar pedras no governo esquerdista grego por sua demagógica política fiscal e monetária relaxadas, suas gastanças desenfreadas, enfim, o que é a contrafação da boa governança convencional dos manuais.

Já os analistas de pensamento ou tendências heterodoxas e, mais ainda, aqueles com preferências políticas decididamente de esquerda apontam ou denunciam o excessivo rigor das políticas de austeridade recomendadas, os sacrifícios que impõem à população, principalmente às suas camadas mais pobres, no interesse – argumentam – dos bancos em geral e dos negócios de natureza financeira. Essa boa governança, na opinião de tais críticos, se destina a preservar o status quo social e o mercado de consumo tal como está.

Em última análise, portanto, o problema econômico da Grécia, que, inegavelmente, é também da União Europeia (UE), acaba transbordando, como ocorre quase sempre, para o terreno político e definindo partidarismos.

O partido de tendências socialistas da Grécia, com seu primeiro-ministro Alexis Tsipras, é mais um caso provado de fracasso do socialismo no mundo? O bem-estar e a estabilidade dos principais países da UE é mais um caso provado do sucesso do capitalismo como forma de gerir a economia?

Uma resposta favorável a qualquer das duas teses não consegue se erigir em caráter absoluto. Até porque vários outros países da Europa, embora não se tenham afastado da ortodoxia, como a Grécia o fez, nem relaxado como ela, também se viram à beira do default e tiveram de ser socorridos.

O governo do Brasil vive dilema algo análogo, pois no período Lula/Dilma se entregou a políticas ditas populares

Por outro lado também é impossível uma resposta absoluta para a seguinte pergunta: em termos de sacrifícios e apertos de cintos, o que é pior para o povo grego? Aceitar e cumprir o “catálogo de atrocidades” que a UE lhe impõe – apelido dado pelo Der Spiegel – ou recusá-lo e sair da zona do euro?

As duas hipóteses são igualmente insuportáveis e inaceitáveis ou uma delas é mais sacrificial (digamos) do que a outra? Eis aí como, de novo, as opiniões se dividem conforme a filiação ideológico/política do economista ou do analista. Para os ortodoxos, a saída do euro seria o caminho da perdição; para vários heterodoxos, poderia ser o da salvação.

Na prática, ao que tudo indica, só o oráculo de Delfos, que calou a boca há mais de 2 mil anos, poderia responder conclusivamente à consulta do povo grego, que o pitonisa Tsipras se dispusesse a fazer.

O governo do Brasil vive dilema algo análogo, pois no período Lula/Dilma se entregou a políticas ditas populares – na prática, políticas populistas relaxadas, visando muito mais a votos do que à racionalidade. Era um subsocialismo de mesa de bar erigido em políticas públicas.

Na sequência, ou seja, justamente no início do segundo mandato de Dilma, percebe-se que essa receita, ao invés de aumentar o bolo da economia, o batumou, ou pilou, como dizem muitas donas de casa. Assim, vacila sobre se engole ou não toda a ortodoxia de Joaquim Levy embutida no ajuste fiscal ou a absorve minorada.

Por sorte, não tem uma dívida externa paralisante, como a da Grécia, que lhe imponha uma resposta definitiva. Pode ir “tenteando”, como diria o matuto. Mas o fato é que tanto ortodoxos como heterodoxos têm importantes lições a tirar do caso grego. E isso talvez seja a única coisa positiva para a economia que toda essa novela oferece.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 16/7/2015

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