Autor Convidado: Sandra Cavalcanti

Gostei muito do debate de domingo. Não concordo que o definam como apenas uma desagradável troca de grosserias, em que ficaram faltando as propostas de governo. Ética é programa de governo. Seriedade, também. O desempenho de Lula foi decepcionante até para seus aliados. Por outro lado, Geraldo Alckmin foi uma surpresa contundente. O PT prometera um candidato cheio de propostas convincentes para o seu próximo governo, já não tão próximo… Não foi o que se viu. Lá esteve o mesmo Lula destes últimos anos. Nas frases previamente decoradas, ele se sai mais ou menos. Mas, quando as questões trazem surpresas, o candidato revela as suas dificuldades habituais. Ou seja (e como ele abusa deste “ou seja”!), imprecisão de dados, desconhecimento de fatos e desconforto nas regências e concordâncias. Parecia que ele estava bem preparado para o debate, pois se valia, o tempo todo, de um calhamaço de notas à sua frente. Mesmo assim, fez algumas confusões imperdoáveis. Tentou, inutilmente, trazer o governo FHC para o ringue, mas não conseguiu. O ex-governador de São Paulo teve a habilidade de comparar sempre o desempenho de Lula no Planalto ao desempenho do PSDB em São Paulo. Essa tática foi muito eficaz. É exatamente em São Paulo que a comparação entre os dois governantes pode ser feita, pois ali são bem conhecidos. Quanto a Alckmin, imagino que ele tenha sido uma grata surpresa para muita gente, inclusive para muitos dos seus adeptos. Até para boa parte da mídia, que jamais escondeu suas reservas ao estilo sério, sereno e pouco charmoso do “caipira de Pinda”, o comportamento do candidato da oposição foi quase um susto. O País inteiro esperava deste debate alguns esclarecimentos urgentes. Enquanto o povão queria que Lula revelasse, afinal, de onde viera toda aquela dinheirama, aquele incrível monte de reais e dólares, a tão malfalada elite queria saber, de cada candidato, qual o programa de governo capaz de fazer o Brasil parar de encolher e criar perspectivas de trabalho para milhões de jovens, nestes próximos anos. Acertadamente, foi esta a questão que levou o mediador a fazer a mesma pergunta aos dois candidatos: como fazer o País crescer? Ao respondê-la, Lula perdeu a sua primeira grande oportunidade. Visivelmente nervoso, recitou um texto decorado, mantendo toda a cadência de algo que foi escrito para ser lido. E nada disse de novo, além das costumeiras auto-exaltações, que são a marca de suas falas. Era um videotape de si mesmo. Na seqüência, Alckmin foi muito feliz. Calmo, bem articulado, satisfez os milhões de brasileiros que assistiam ao debate. Levantou, de cara, a questão da origem da dinheirama do dossiê fajuto. Foi duro e implacável ao comentar o fato de o Planalto não conseguir obter, de um dos seus auxiliares ou de seus amigos, essa mera e reles informação… Depois, atento à pergunta, Alckmin deixou claro que não pretende cortar gastos sacrificando funcionários e aposentados. Vai cortar na corrupção. E mostrou, com números incontestáveis, quanto dinheiro sai pelos desatentos ralos oficiais. Encerrou sua primeira fala, porém, pedindo de novo informações sobre a origem daquela dinheirama. Para alguns especialistas políticos, e até para o vitorioso governador eleito da Bahia, esse foi um golpe abaixo da cintura. É o caso de perguntar: a que golpe ele se referia? Ao monte de dinheiro ou à pergunta? O debate prosseguiu, depois disso, num contraponto absolutamente inédito. Lula pedia, com voz lamentosa, que Alckmin mudasse de tom. Chegou a dizer várias vezes que o seu rival estava nervoso… Mas Alckmin continuou batendo firme nos erros do governo petista, elevando a cada intervenção o grau de suas ousadias. Nos blocos seguintes, a mesma coisa: Lula tentando exaltar o seu governo, Alckmin desmontando várias de suas versões. As perguntas ficavam sem resposta, principalmente da parte de Lula. No quadro com os jornalistas, a situação ficou pior ainda para Lula. Não houve nenhuma ajudazinha ou refresco, como se diz por aí, o que aumenta o mérito da isenção da TV Bandeirantes. O grande momento de cada candidato chega sempre, para encerrar a disputa, quando cada candidato dispõe de um tempo maior e livre para as chamadas “considerações finais”. Lula, mais uma vez, mostrou o excelente ator que as nossas TVs e o teatro perderam: tinha um texto longo, decorado, cheio de emoção, destinado a atingir em cheio a alma dos seus seguidores. Conseguiu declamá-lo corretamente. Mas, para desgosto de seus correligionários, vieram em seguida a objetividade, a clareza e a coragem de Alckmin. Sem retórica e sem medo, ele deu um recado firme, cheio de esperança, mostrando que o Brasil merece dias melhores do que estes, de triste memória. O fato de, no debate, os candidatos terem usado algumas vezes palavras duras, tais como mentira, fraude, corrupção, falsidade, hipocrisia e outras menores, significa que o debate foi muito esclarecedor. Como poderia ser ameno, cordial, sincero e altamente propositivo um debate em que um dos litigantes é o líder inconteste de um bando – que ele considera “aloprados”, mas, na verdade, são réus confessos – formado por funcionários apanhados em flagrante de rapinagem e por companheiros presos por desvios de dinheiro público? Queriam o quê? Rapapés? Mesuras? Gestos delicados? Palavras melodiosas? O espetáculo degradante oferecido ao povo pelo grupo político liderado por Lula tinha de ser o tema principal do debate. E tinha que dar o seu tom. Só falta, agora, a gente saber de onde veio a dinheirama. O resto a gente já sabe.

O Estado de São Paulo, 11 de outubro de 2006

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