Um dia seremos civilizados

Desde a adolescência me pergunto qual é o problema do brasileiro. Pode ser que isso não faça muito tempo. Desde os meus 15 anos, contudo, passou-se quase uma década e minha compreensão acerca do Brasil e de seu povo se tornou paradoxalmente turva. O interessante é que, pelo jeito, o passar do tempo incidirá mais em dúvidas do que em descobertas.

O Brasil é inexplicável, e todas as teorias sobre ele – aprendi lendo Roger Bastide – tem que se valer menos de ciência que de poesia. Se um estrangeiro quiser entender o povo tupiniquim certamente poderá fazê-lo lendo Macunaíma. O personagem de Mário de Andrade traz em si as características do “homem cordial” de que nos falou Sérgio Buarque de Holanda. É a personificação do malandro. Típico brasileiro. Trata-se do homem movido mais pela emoção que pela razão, indisposto e alheio a qualquer contrato social que não lhe convenha.

O brasileiro é muito bem retratado, ou melhor, abordado em toda sua peculiaridade em diversas obras, seja de arte ou de entretenimento. Exceção seja feita a Policarpo Quaresma, que acreditava na possibilidade de um bom funcionamento de nossas instituições.

Mas, se acaso perpassássemos por grande parte de nossa produção cultural, poderíamos ver uma incrível indisposição de nossos personagens com a lei, a ética e a civilidade. Das obras-primas de Machado de Assis – o ápice de nossa arte – aos programas humorísticos sem graça que assistimos na TV dos dias atuais o que se vê é o brasileiro que gosta de se dar bem e de estar à margem da lei.

Foram muitos os motivos que nos levaram a ter essa característica escorregadia em relação à ordem e às leis instituídas, de não saber separar o público do privado. Não obstante, o passar do tempo parece não nos dotar de elementos que demova do Brasil essa triste peculiaridade e seus onerosos efeitos sobre a vida em sociedade.

Este texto, a fim de ilustrar essa indisposição, não poderia se furtar de citar o ex-presidente Lula, no caso dos super-passaportes emitidos para membros de sua família. Aliado a esse caso, relembramos o caso do “Mensalão”, que voltou a ter destaque na mídia nacional.

Luís Inácio Lula da Silva chegou à Presidência da República após algumas tentativas frustradas. Contudo, venceu e o Brasil alçou importantes resultados econômicos. Como decorrência, tornou-se o principal responsável por esses bons acontecimentos. Não entro no mérito desta questão. Aqui não importa se Lula foi ou não o mentor deste “novo Brasil” – que de novo nada tem.

O caso é que Lula ganhou todos os créditos de um grande número de brasileiros. Ele fala a língua da massa – e isso agrada também os que não fazem parte dela, como os intelectuais. O ex-presidente também encarna a imagem do brasileiro comum: o operário, oriundo do sertão, sem estudos.

Sendo semelhante aos demais, sua escalada ao poder é a emergência do homem simples e desconhecido que se eleva ao mais alto cargo político do país. Lula se dá bem e ganha o respeito dos brasileiros por isso. E, assim, ele entende que está lá e é aclamado por ser como os homens simples, que são a maioria dos indivíduos.

Lula, portanto, é a personificação do brasileiro. Nele estão incrustadas todas as características desses homens: o jeitinho em relação à lei e a malandragem em busca de algum benefício.

E é assim, numa clara indisposição com a lei, que Lula e seus familiares se recusam a entregar os super-passaportes que ganharam durante o mandato do petista. E isso não incidirá em qualquer dano contra o ex-presidente. Ele sairá ileso, tanto judicial quanto politicamente.

Já o “Mensalão”, cujo processo deve prescrever em pouco tempo, anda esquecido. Dias atrás, um procurador tentou incluir Lula no processo. Ele afirma que o petista é um dos culpados e, sem ele, outros também sairão impunes, como José Dirceu. Para o procurador, não haveria “mensalão” sem Lula.

No entanto, o ex-presidente não entrará no processo. O “Mensalão”, caso seja julgado pelo Superior Tribunal Federal – STF, nada renderá à nossa política. Se houver pena, será mínima. Mas há grande possibilidade de que todos sejam inocentados.

Lula, como se vê, é a própria personificação da nossa malandragem. Deu-se bem por isso.

Ainda assim ouso dizer que um dia seremos civilizados, tal como os europeus. Apenas precisamos de mais alguns séculos de domesticação.

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