Um domingo para sempre

Há tempos não temos um dia tão importante como hoje, domingo de eleição, 26 de outubro, dia de São Evaristo, um dos primeiros papas, o quarto sucessor de Pedro. Ontem, todavia, pasmem, foi dia de São Crispim, padroeiro dos sapateiros, e sobretudo das batalhas heroicas e vitórias impossíveis contra forças numericamente superiores. Que extraordinária coincidência, ou presságio!

Hoje vai ser daqueles dias cujos pequenos detalhes vão fervilhar na sua memória pelo resto dos tempos. Terá a névoa dos dias históricos desde o seu amanhecer, e assim permanecerá por muitos anos a fio. Mas você lembrará das minúcias de seu café da manhã, dos sonhos confusos de ontem, noite mal dormida como costuma ocorrer com a véspera de grandes eventos. Ou não, pois, na vida real, geralmente não há sinais exteriores, coros e orquestras a lhe alertar sobre a presença dos deuses da História. A memória se encarrega dos agouros ex post facto.

Daqui para o final da vida, espero lembrar com serena alegria deste dia de São Evaristo, quando cumprimos com heroísmo uma importante obrigação com o bem-estar de nossos filhos e netos. A cada ano, nesta data, eles vão lhe perguntar sobre seus atos de bravura diante de patrulhas mal-humoradas e irascíveis e você responderá que, sim, eles pareciam em maior número, mais aguerridas e profissionais, e mais bem treinadas em táticas de guerra psicológica, confrontos de rua e nas redes sociais. Que falavam muito, quase sempre insistentes, a um passo da insolência, arrogantemente embrulhados numa falsa superioridade moral autoconferida. Que não ouviam suas palavras, que eram amiúde violentos e mal-educados e que contavam com as poderosas estruturas da máquina governamental, longamente azeitadas para este encontro naquele domingo.

Muitos de nós ficam intimidados pela selvageria dos combates, pois assim é a guerra, nunca foi diferente, não vamos idealizar. Mas é preciso lembrar que nessa guerra as maiorias silenciosas sempre vencem, e por isso mesmo saia de casa pensando que somos poucos (e ingênuos) apenas na aparência. São muitos como você, que não gostam de bravatas e imposições, que votam de forma discreta e independente. Sobretudo, e mais importante que tudo, lembre-se que somos maioria.

O desastre com as contas públicas trouxe de volta a inflação, lamento informar, mas que esperar quando os amigos da inflação estão no poder?

No futuro, você lembrará com satisfação que neste domingo, como em todos os outros em que há futebol, o jogo foi ganho dentro das quatro linhas. E que a partida só começou mesmo quando o escurinho da cabine lhe proporcionou a necessária proteção contra o festival de apoquentações e mentiras desabando sobre todos nós como flechas em quantidade para criar uma nuvem a encobrir a luz do sol.

Mas o dia de São Evaristo ainda está no presente, e será celebrado por muitos anos, com alívio ou com pesar, a depender do resultado da batalha. No futuro, quando o Brasil estiver entre os países desenvolvidos, será com orgulho que você exibirá as cicatrizes e mágoas desses últimos dias, perdoadas no momento em que você apertar a tecla verde, mas jamais esquecidas.

Alternativamente, se o Brasil estiver mais parecido com a Argentina e a Venezuela, como de fato se passou entre 2009 e 2014, seus amigos vão querer saber onde você estava nesse dia de São Evaristo.

A depender do desfecho desse domingo do tamanho de uma década, talvez se estabeleça uma Comissão da Verdade Fiscal, com o intuito de desbaratar a confusão contábil e administrativa com o dinheiro público feita nos últimos anos, uma barafunda sem tamanho da qual vimos muito pouco. É lamentável que esses assuntos definidos como “técnicos” ou “propositivos” tenham sido ardilosamente evitados quando, por obra deles, a batalha foi deslocada para o terreno baixo das acusações pessoais.

Por isso queria usar esta última oportunidade para lhe soprar, sobre a economia, nada mais que uma ideia e um número, coisa rápida.

A ideia: o desrespeito ao dinheiro público não é keynesianismo nem estruturalismo, mas improbidade, simples assim, e representa a forma mais direta de corromper a moeda. O descaso com as contas públicas é a mãe de todas as corrupções, e um péssimo exemplo para as condutas de todos à volta das autoridades econômicas, como estamos efetivamente assistindo.

Guarde apenas um número para pensar a caminho da urna: a dívida pública interna chegou a incríveis R$ 3 trilhões. Acostume-se com o trilhão! E pior: cerca de um terço dessa dívida “encalhou”, ou seja, não consegue ser rolada pelo Tesouro.

A Grécia quebrou por dificuldades de rolagem de dívida proporcionalmente menores, e por que não tinha um banco central como o nosso que pode absorver R$ 1 trilhão em dívida sem comprador (via operações compromissadas) tornando letra morta o Artigo 164 da Constituição que proíbe o Banco Central de financiar o Tesouro. Devíamos ter discutido isso durante a campanha, não é mesmo?

O desastre com as contas públicas trouxe de volta a inflação, lamento informar, mas que esperar quando os amigos da inflação estão no poder?

Lembre-se que nunca se encontra um defensor da poluição, mas sempre muitos críticos às estratégias mais substantivas de combate às emissões de carbono. Da mesmíssima forma, é rara, entre os economistas heterodoxos, a defesa aberta da inflação, embora seja muitíssimo frequente a crítica à estabilização “ortodoxa” ou à “austeridade”. Como a “estabilização heterodoxa” se parece com um unicórnio, não é tão difícil encontrar os ideólogos da inflação entre os críticos, por exemplo, do Plano Real. Quem são eles?

Sobre o real, o ministro Mantega disse que “essa estratégia neoliberal de controle da inflação, além de ser burra e ineficiente, é socialmente perversa”. Segundo Mercadante, “o PT não aderiu ao plano por profundas discordâncias com a concepção neoliberal que o inspira”. Para Conceição Tavares, “o Plano Real foi feito para os que têm a riqueza do país, especialmente o sistema financeiro”. Para o “diplomata” Marco Aurélio Garcia, o Plano Real era como um “relógio Rolex desses que se compra no Paraguai e têm corda para um dia só”.

São esses os personagens que tocam a economia. Eles nunca entenderão a relação entre moeda e cidadania, e que a moeda é como a bandeira e o hino, uma parte da nossa identidade.

Na Alemanha de 1923, a inflação foi o veneno que terminou com a democracia, o berçário do fascismo. Aqui o impacto foi diferente, mais sutil: a inflação proporcionou enorme impulso à cultura da malandragem, dos canais privilegiados, da seletividade, do clientelismo e da corrupção. A leniência com a inflação transmite esses “valores” de forma muito ampla para a sociedade, e assim a corrupção se torna uma consequência natural da inflação, sua irmã mais recolhida e circunspecta, mas muito ativa.

Vista as cores da bandeira e tome o caminho da urna pensando em seu livre-arbítrio, e sobre o modo como você vai comemorar São Evaristo e São Crispim no restante de seus dias. Bons votos!

Fonte: O Estado de S. Paulo, 26/10/2014

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