Eu amava meu pai. Eu, minha mãe, meus quatro irmãos, seus netos, parentes e amigos, todos o amavam. Hoje é o amor e a saudade. Meu pai se entregou a duas missões: constituir e prover numerosa família e educação pública de qualidade.

Exilado de Natal, uma de suas paixões, pois era um homem de paixões, em 1964 aportou no Rio, entristecido por ser impedido de desenvolver seu mais ambicioso projeto “De pé no chão também se aprende a ler”. Era botar os meninos descalços em escolas de palha e ensiná-los. Foi um gesto imenso, que custava pouco aos governos.

Meu pai foi um homem público no sentido pleno, o que estamos perdendo de vista. Foi secretário de educação duas vezes em Natal e uma no Rio, em uma rápida passagem. Entregou-se à tarefa com entusiasmo, mesmo em prejuízo da vida privada.

Em sua casa uma grande mesa imperava, lugar dos almoços onde reunia a família e agregados e o prato principal eram política e Brasil. Discutíamos, discordávamos, acusávamos-nos de insanidades políticas, mas no meio da discussão o mais antagônico beijava-lhe a face. Em mais de 40 anos de mesa, só uma vez um voto foi unânime, em Fernando Gabeira, ano passado.

Ultimamente, andava triste com as cotas raciais. Achava óbvio que o importante é investir no ensino fundamental. Ele nos ensinou que raça não existe e que a cor não diferencia os homens. Nos últimos meses eu levava meu filho para o almoço de domingo para que ficasse marcada a lembrança do avô, pois muito do que tento ensinar vem dele. Quando dei a notícia do falecimento do avô, meu filho ficou longo tempo em silêncio e seus olhos se encheram de lágrimas. Tenho certeza que sabe quem foi Moacyr de Góes.

(O Dia – 02/04/2009)

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