O Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre surpreendeu para cima, crescendo à taxa anualizada de 4,9%, acima dos 2,8% esperados pelo mercado. A surpresa positiva não elimina, porém, o fato de que houve uma desaceleração considerável no ritmo de expansão da atividade econômica, que fica mais evidente quando se considera que quase todo o crescimento no trimestre, pelas estimativas do Banco Central (BC), resultou de um carrego estatístico. Também importante, parcela relevante da variação do PIB adveio do acúmulo de estoques, parte do qual pode ter sido involuntário.

O Brasil não foi o único país a experimentar essa desaceleração: os EUA, o Japão, o Canadá e a China, por exemplo, também passaram pelo mesmo processo. A história por trás disso varia entre os países, mas no todo é um sinal de que a economia mundial deve perder dinamismo na segunda metade do ano e, possivelmente, em 2011, quando o fim do ciclo de estoques e uma política fiscal mais restritiva devem funcionar como um freio adicional à expansão do PIB. Isso ocorre em um momento em que o hiato do produto, uma forma sintética de medir o grau de ociosidade de uma economia, é elevado nas economias do G-3, acendendo o temor de que essas mergulhem num demorado processo de desinflação, que complique ainda mais a digestão do elevado endividamento de famílias, sistema financeiro e governo.

O reflexo disso será um quadro econômico e político volátil e incerto. Mesmo que o mundo desenvolvido não vire o Japão desta década, o crescimento mundial deve ser baixo por muitos anos. Isso manterá as taxasde desemprego elevadas por um período longo, levando à perda de capital humano e grande insatisfação de parcela significativa dos eleitores. A demanda por protecionismo e novas formas de “política industrial” vai se intensificar, especialmente nos EUA, onde o elevado déficit em conta corrente é visto como um ralo pelo qual escoam os empregos que faltam internamente. Isso vai ocorrer em um ambiente em que as empresas se defrontarão com um quadro regulatório em transformação, com o aumento dacarga tributária, para fazer frente à dívida pública crescente, e novas normas para o setor financeiro, que podem restringir a oferta e aumentar o custo do crédito.

A taxa básica de juros no G-3 vai continuar baixa e, provavelmente, os bancos centrais, em especial o Federal Reserve (Fed, banco central americano), vão tentar novas formas de afrouxamento quantitativo, possivelmente envolvendo papéis privados, quiçá ações. Em um segundo momento, combinado com a queda do crescimento potencial, esse pode ser o combustível de uma aceleração inflacionária, que até certo ponto pode interessar a governos endividados. Mas esse é um capítulo à frente.

Quando os historiadores olharem para esses anos, possivelmente o resumirão com uma baixa taxa média de crescimento. Para quem os viver, porém, a experiência será predominantemente bipolar, oscilando entre a frustração com indicadores negativos e a euforia com novas iniciativas governamentais de combate à crise. No mercado financeiro, que vive de dados de alta frequência, essa sensação de bipolaridade pode se tornar especialmente acentuada.

Nesse quadro, o polo dinâmico da economia mundial vai migrar para a Ásia emergente, liderada por China e Índia. Pelas projeções do FMI, essa região deve crescer a uma taxa média de 8,6% em 2010-15, contra apenas 2,4% nos países ricos. Para a China, em especial, o Fundo prevê uma expansão médiade 9,6% ao ano. Esse bom desempenho chinês, e asiático em geral, deve funcionar como uma das âncoras das economias latino- americanas, mantendo seus termos de troca em patamar relativamente alto e puxando suas exportações. Para Chile, Peru e Brasil, em que a China responde por entre 20% a 37%do total das exportações, a Ásia vai se tornando mais importante para determinar o comportamento do comércio exterior do que parceiros tradicionais como os EUA e a Europa.

A América Latina também deve se beneficiar do grande influxo de capital externo, em busca de rendimentos elevados, em uma região em que os juros e o crescimento devem ficar bem acima dos países ricos. Isso vai estimular o crédito e o investimento, elevar a renda real e tornar a demanda doméstica a principal fonte de dinamismo da economia , mas também vai fortalecer as moedas locais e ampliar os déficits em conta corrente. Por aqui também vai haver uma intensa demanda por protecionismo e políticas industriais, voltadas para compensar a perdade competitividade dos setores mais afetados pelo câmbio, assim como a reconhecida falta de mão de obra qualificada e de infraestrutura de boa qualidade.

A questão que se coloca nesse cenário é em que grau as países em desenvolvimento serão capazes de sustentar esse bom desempenho, e um intenso comércio Sul-Sul, enquanto as economias do G-3 ficam estagnadas e com fundamentos fiscais cada vez piores. Para a América Latina, em adição, há o problema perene da baixa taxa de poupança, que pode levar a uma dependência insustentável da poupança externa, como em outros momentos no passado.

Fonte: Jornal “Valor econômico” – 10/09/10

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