Dizem que o mundo está aquecido. Eu afirmo que é pior: vivemos num mundo requentado. Servir uma comida requentada é sinal de preguiça; melhor seria fazer um prato novo. É como ensinar a quem acha que sabe – essa multidão que povoa o mundo. O que singulariza um universo globalizado é o excesso de meios e uma enorme carência de fins. Nele, o velho tende a retornar como novo. No mundo diário, isso surge com os homens de cabelo pintado da cor de burro quando foge.

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A vida é uma linha. Ela começa no nascimento, passa por um longo período de consolidação física e ética; segue para uma aliança conjugal cuja consequência é geralmente a criação de novas vidas e a responsabilidade de transformá-las em pessoas e, finalmente, ela nos leva a um ponto sem futuro (toda mudança na velhice é problemática porque não se mexe em time que está ganhando), que antecede a saída deste dramalhão barato e belo do qual tomamos parte sem termos sido convidados.

Não obstante essa implacável linearidade, cada fase da vida tem seus impulsos, seus dilemas e suas regressões. Uma nova etapa não acaba automaticamente com a outra. Exceto nos rituais, e, por isso, eles são tão importantes, essas fases todas se confundem e criam dilemas dentro de dilemas e regressões (bem como saltos e rompimentos) em meio aos retornos. Continuar crescendo (dizendo não a nós mesmos) ou voltar à irresponsabilidade da infância? Caminhar sozinho na tempestade ou desistir? Como saber se o Brasil vai dar certo se ele continua e nós, um dia, partiremos?

Na meio do jardim podado da velhice encontramos o menino inseguro ou o adolescente moleque; na juventude tentamos viver o idoso que fala pausadamente e imagina que sabe tudo. As fases da vida seguem como um trem de ferro, mas a composição não é fixa. Muitas vezes a locomotiva é empurrada por vagões vazios…

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Tenho a sensação do requentado. A Rio+20 me reitera – apesar do esforço de alguns grupos e do Sérgio Besserman – a Torre de Babel. E existe coisa mais velha do que redescobrir em meio à fanfarra da mídia e da presunção dos “chefes de Estado” que nós, humanos, não nos entendemos nem quando se trata de salvar o teatro no qual atuamos? O único modo de encontrar o acordo é saber que estamos sempre em desacordo. Geralmente, em nome de algo maior que para o outro é obviamente menor. Movidos por um enredo individualista, mas ignorando-o, queremos discutir o planeta sem nos darmos conta da força dos nossos tabus nacionais e patrióticos. O resultado é uma conta que não fecha, pois nossa maior dificuldade é justamente perceber o planeta como um englobante – como uma totalidade que tem suas razões e demandas.

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Há algo mais cinicamente requentada do que essa CPI Cachoeira-Demóstenes-Delta num momento eleitoral? Pode haver algo mais lamentável numa democracia do que a mentira e a mendacidade como valores políticos? O caso Demóstenes é culminante – como ter democracia sem oposição? Melhor do que isso, só o encontro de Lula com Maluf – essas criaturas da modernidade paulista -, ambos candidatos a padrinhos do candidato Haddad. Mas no meio do retorno do nosso velho personalismo, negativo e onipotente, surge uma Erundina que usa sua individualidade para dizer que sem os valores nenhum de nós é coisa alguma. E não há nada mais patético do que um ator sem texto.

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Será que perdemos o senso e não nos importamos com a politicalha de alguns políticos?

Eis uma pergunta que não pode calar-se: é possível fazer política – essa esfera da vida que hoje substitui a religião – permitindo tudo? O cálculo do poder pelo poder, o vencer a qualquer custo, a norma brasileira segundo a qual em política o pecado é perder e a ideia de os adversários serem canalhas são concepções vencedoras?

Será que perdemos o senso e não nos importamos com a politicalha de alguns políticos? Pode-se viver democraticamente numa sociedade que tem uma multidão de leis, mas que não pune os privilegiados – os que, como Lula e Maluf e Haddad, entram no grupo do “nós somos tu e tu é nosso”? É possível conviver com o roubo aberto de bens essenciais para a nossa própria existência, como escolas, hospitais, polícia e saneamento? Nem num livro de ficção científica escrita por um cínico se encontra esta combinação que hoje permeia a cena nacional: esta divisão de tarefas na qual um monte de gente trabalha para sustentar uma aristocracia estatal que nada faz e tem a arrogância de alardear isso como algo normal, comum em todos os países.

Será que vivemos num país que conseguiu encaixar nos pagamentos rotineiros da vida pública algo que vai além dos dinheiros, pois neste Brasilzinho de hoje a ideologia – que era o último reduto do altruísmo – virou também moeda corrente e sonante?

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“Um povo livre”, escreve Karl Jaspers no seu Introdução ao Pensamento Filosófico, “sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação” – continua – “não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política.”

(Volto – se tudo correr bem – em 1.º de agosto).

Fonte: O Estado de S. Paulo, 27/06/2012

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