Um Museu dos Estados

No comércio, há uma variável crucial na definição do negócio, que é o conceito de “ticket médio”. Quem vai a uma loja, por exemplo, pode comprar uma bala de R$0,50, uma revista de R$10 ou uma garrafa de R$50. O comerciante pode não ter espaço físico para fazer com que o local ganhe mais visitantes por dia, mas pode aumentar o lucro tentando induzir o freguês a aumentar o valor da despesa que deixa em cada visita.

Analogamente, uma questão importante para definir que futuro terá o Rio depois dos jogos de 2016 é conseguir que não apenas a cidade se capacite para receber um fluxo maior de turistas, como também que cada um destes tenha um “ticket médio” melhor, ou seja, gaste na cidade um valor maior – entre outras coisas, ficando mais tempo. Se o Rio conseguir que o turista que ficaria 5 dias fique 7 ou que aquele turista que veio uma vez repita a visita, o turismo e a cidade sairão ganhando.

É nesse sentido que poderíamos criar um Museu dos Estados, concebido como um projeto de longo prazo, a ser inaugurado em 2022, quando o país estará fazendo 200 anos do Bicentenário, e o Rio comemorando o centenário da famosa Semana de 22. Qual é a inspiração? Todo americano sonha com passar uns dias em Nova York e todo francês pensa em conhecer Paris algum dia. Nós temos que incutir no espírito do brasileiro de todos os cantos do país que ele deveria um dia visitar o Rio – e não apenas para ir à praia. Em um país com quase 200 milhões de habitantes, o potencial para uma ideia dessas emplacar é grande.

Uma das coisas que chamam a atenção de um estrangeiro que conheça o Brasil é a combinação de unidade e diversidade que nós temos. Por maior que seja a padronização associada a elementos comuns, os fatores locais continuam contando. Mais de dois séculos depois da constatação de Adam Smith de que “um italiano expressa mais emoção ao ser multado na rua do que um inglês ao receber uma sentença de morte”, e por maiores que sejam a globalização e a presença de ambos países na União Europeia, a Itália e a Inglaterra continuam sendo países muito diferentes entre si. Analogamente, no Brasil nós temos pelo menos uma dúzia de Estados com elementos geográficos e culturais marcantes, que permitem que eles sejam claramente individualizados na mente do brasileiro como algo específico. Sem querer cometer uma injustiça com quem não for citado, mas apenas para citar os Estados que creio terem traços distintivos mais singulares, pode-se pensar em RS, SC, SP, MG, RJ, DF, AM, MT, GO, BA, CE e PE como casos mais ou menos óbvios de Estados com uma identidade própria muito bem definida e diferenciada em relação a outros.

Provavelmente muitos leitores desta página tiveram a oportunidade de visitar a Disney em Orlando e, se lá foram, quase certamente estiveram no parque da Epcot. Para os leitores que não estiveram lá, vale a explicação: Epcot é uma espécie de monumento à diversidade cultural, onde o leitor tem a possibilidade de passar um dia inteiro visitando os pavilhões nacionais de mais de 10 países com culturas muito bem definidas aos olhos do mundo. Estão representados lá, entre outros, Estados Unidos, Canadá, Japão, China, França, Alemanha, Itália, Inglaterra, México, Marrocos etc. Em cada pavilhão, o turista pode passar 2 ou 3 horas assistindo a shows típicos, vendo filmes com as belezas naturais do país, comendo as comidas típicas associadas ao lugar ou comprando artesanatos locais. Em dez horas de um dia, o visitante tem um banho de mundo.

O Rio precisa ter um projeto claro para depois das Olimpíadas de 2016. Um dos projetos deveria ser o de voltar a ser uma espécie de “capital cultural do país”, coisa que há muito tempo deixou de ser. Uma espécie de “mini-Epcot brasileiro”, na forma de um Museu dos Estados, com uma concessão entregue por algumas décadas a um grupo com tradição na área de entretenimento, com um projeto muito bem especificado de caracterização dos traços regionais e um modelo de negócios bem concebido, em um local apropriado, poderia fazer com que todos os brasileiros almejassem um dia conhecer esse parque. De quebra, seria uma aula cívica, onde cada visitante aprenderia sobre os demais Estados – e sairia um pouco mais brasileiro. Vale a pena pensar no assunto.

Fonte: O Globo, 02/08/2011

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