Sábado, 10 de dezembro de 2016
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Um novo padrão de crescimento

Durante muitos anos a economia brasileira teve um padrão de crescimento com base no setor de serviços de baixa produtividade e aumento da demanda por trabalhadores não-qualificados. Entretanto, esse padrão de crescimento se esgotou. A inflação começou a crescer, assim como o desemprego, a dívida pública entrou numa dinâmica insustentável, ao mesmo tempo em que a crise política retroalimentava a crise econômica. Como sair dessa crise?

O modelo de crescimento anterior só foi possível por uma conjunção de fatores favoráveis. Do lado externo, houve grande melhora dos termos de troca, o que trouxe muitos recursos externos para nossa economia. Internamente, o aquecimento do mercado de trabalho fez com que a política de valorização do salário mínimo conseguisse reduzir a desigualdade de renda sem provocar desemprego ou informalidade. E a expansão de programas sociais, como o Bolsa Família por exemplo, conseguiu reduzir bastante a pobreza.

O aquecimento do mercado de trabalho, por sua vez, veio do setor externo e também do próprio padrão de crescimento que prevaleceu até o final da década passada. O aumento do salário mínimo aumentou o consumo no setor de serviços pessoais que emprega intensivamente os trabalhadores não qualificados. Além disso, houve grande diminuição na oferta de jovens menos qualificados, tanto devido à transição demográfica como pelo aumento da renda das mães menos escolarizadas, que preferem que seus filhos saiam do mercado de trabalho para estudar. A maior demanda e menor oferta entre os menos qualificados fez com que o seu salário aumentasse, sancionando os aumentos do salário mínimo.

Entretanto, esse tipo de crescimento provoca diminuição da produtividade agregada, pois o setor de serviços pessoais (que mais se expandiu) tem produtividade menor do que a média da economia. O único setor que teve crescimento da produtividade nos últimos 15 anos foi a agricultura, mas esse setor emprega cada vez menos, pois é intensivo em máquinas e inovações. Assim, o crescimento do setor agrícola não é suficiente para aumentar a produtividade agregada da economia.

Além disso, a taxa de inovações na indústria e nos serviços mais avançados diminuiu porque o governo tomou medidas erradas, associadas à nova matriz econômica. Ao invés de estimular a abertura comercial, controlar a inflação, fortalecer as agências reguladoras e acelerar as privatizações, o governo resolveu proteger parte do empresariado nacional com empréstimos subsidiados aos campeões nacionais, proteção tarifária, redução forçada da taxa de juros e desonerações. Essas medidas tiveram efeito contrário ao esperado, provocando reduções ainda maiores da produtividade. Isso implodiu o modelo de crescimento baseado em consumo e salários e agravou o descontrole das contas públicas.

O que fazer agora? Como fazer a transição de um modelo baseado em consumo e demanda por trabalhadores não qualificados para um padrão de crescimento que tenha por base o aumento da produtividade e dos investimentos? Como fazer isso sem prejudicar os trabalhadores menos qualificados?

Para fazer essa transição é necessário desfazer os erros de política econômica cometidos pela equipe econômica anterior. Ou seja, reduzir as tarifas de importação, começando pelos insumos e depois avançando para os demais produtos. Em seguida, passar para o setor privado a gestão de grande parte dos serviços públicos não essenciais, por meio de privatizações ou concessões, para que possamos melhorar rapidamente a infraestrutura, por exemplo. É necessário também controlar a inflação e investir em ciência e tecnologia, aproximando empresas e universidades para aumentar o conhecimento aplicado e as patentes. Finalmente, será necessário reformar o mercado de trabalho para incentivar o trabalho e diminuir a rotatividade.

Ou seja, é necessário fazer a transição para um modelo de crescimento puxado pelos setores mais dinâmicos da economia, aumentando as inovações e a produtividade nesses setores. Isso também faria com que as exportações melhorassem mais rapidamente, porque o grande problema do nosso setor exportador não é o câmbio, mas sim a produtividade das empresas nacionais.

O problema é fazer tudo isso sem descuidar da parcela mais pobre da população. Uma grande parcela da nossa população não teve oportunidades educacionais e, portanto, não vai se beneficiar de um crescimento enviesado para os trabalhadores mais qualificados. A tendência natural desse tipo de crescimento é aumentar os diferenciais de salário por educação e, portanto, a desigualdade. Como está acontecendo nos EUA, por exemplo.

Para fazer com que os mais pobres também se beneficiem do crescimento é necessário aumentar a produtividade também nos serviços públicos essenciais. Melhorar os serviços de educação, saúde, transporte, proteção e habitação é uma das principais demandas da nova classe média. Avaliar o impacto dos programas nessas áreas e aumentar a eficiência nesses setores é tão importante como aumentar a produtividade das empresas privadas.

Por fim, é necessário que o salário mínimo acompanhe o crescimento da produtividade, para não deixar os salários mais baixos se afastarem da média no mercado de trabalho. Em suma, o segredo é combinar crescimento da produtividade com justiça social.

Fonte: “Valor econômico”, 20 de maio de 2016.

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