Fábio Giambiagi

“De tanto ver triunfar nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto” — Ruy Barbosa

Certa vez, conheci uma pessoa que morava num cantão suíço e não soube me dizer o nome do Chefe de Estado. Isso não era importante: a Suíça é a Suíça, independentemente do governo de plantão. Em muitas sociedades desenvolvidas, os governantes raramente se destacam. Tais países andam sozinhos. Neles, em condições normais, os governantes são quase anônimos e agem de acordo com um padrão de honestidade e eficiência que corresponde à maioria avassaladora da população.

Já em países com instituições mais frágeis, a liderança é importante. São países que precisam se espelhar em alguém. Na Argentina, que ao contrário do Brasil teve vários heróis no século XIX — com destaque para San Martín e Belgrano — há uma frase em um dos livros da literatura local dos anos 70, em que um garoto, perplexo com os desmandos que começava a perceber no país nos seus primeiros passos da juventude, pergunta ao pai: “Se no século passado todos eram heróis, que diabos aconteceu depois?”

O Brasil também se ressente da falta de espelhos. Há uma carência de lideranças inspiradoras e há muito tempo experimentamos uma enorme leniência em relação a hábitos que outras sociedades condenam com vigor. É por isso que nossa política privilegia o acerto com os espertos à cultura do diálogo com o adversário. Somos o país da malandragem e do jeitinho para driblar a regra. Se na cena política assistimos a um desfile de personagens que em outros países estariam atrás das grades, isso reflete os critérios morais elásticos de uma parte não desprezível da sociedade. Mesmo deixando de lado o fato de que tais personagens não foram eleitos em Marte, quem não tem algum amigo que, podendo fazer uso de algum tipo de relacionamento pessoal, não tenta obter alguma benesse oficial indevida?

Costumo tomar táxi — motoristas de táxi são um ótimo termômetro do país — e me causa espanto a dissociação que existe entre a atitude severa de muitos em relação ao país e a régua moral diferenciada que têm em relação a atitudes individuais. Isso vai desde a dificuldade de muitos deles para respeitarem as regras de convivência no trânsito, até o reconhecimento de uma irregularidade própria ou de um conhecido referente a uma esperteza com recursos públicos, geralmente associada à figura do “encostado no INSS”.

Que não se pense que os desvios de caráter são exclusivos de uma categoria profissional ou grupo social. Os exemplos, entre as pessoas de maior renda, também abundam, indo desde a aparentemente inofensiva tentativa de sonegar impostos, até — no Rio de Janeiro — a convivência com bicheiros, com seus laços com outros (sub)mundos da sociedade local.

É como se a separação do que é certo do errado fosse mais tênue entre nós. Quando morei nos EUA, ficava impressionado quando via as caixas metálicas para comprar jornal, em que com 50 centavos de dólar se abria a tampa de vidro e qualquer um podia levar todos os exemplares, apesar do que todos os usuários levavam apenas um. Na Escandinávia, fiquei maravilhado numa viagem vendo como num restaurante as pessoas pesavam o prato, colocavam o dinheiro numa mesa e pegavam o troco de uma pilha de moedas, sem qualquer fiscalização e sem que ninguém ousasse roubar um centavo. E em vários lugares da Europa é comum ver nas estações de trem centenas de bicicletas sem cadeado, que os passageiros deixam de manhã na praça, para procurar no fim do dia no retorno às suas casas. Se concluirmos que tais cenas são impensáveis no Brasil, entenderemos por que nossa representação política é o que é.

Não estamos aqui falando de indivíduos. De um modo geral, nossos últimos presidentes são pessoas em relação às quais não há dúvida acerca de sua honestidade. Isso não basta, porém. O que as passeatas de junho talvez estejam nos dizendo é que uma parte do país não quer conviver mais com nossas mazelas morais. Distinguir o certo do errado talvez se torne mais necessário a partir de agora, no Brasil. Se for assim, a tolerância com a corrupção deverá diminuir. O país ficará melhor quando os corruptos tiverem vergonha de sair na rua.

Fonte: O Globo, 09/09/2013

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1 comment

  1. t tonucci

    Na Suíça eles não tem prurido nenhum em se dar muito bem com o dinheiro roubado, dos pobres, no mundo todo. E eu, que tenho 70 anos, e nunca fui roubado no Brasil, já o fui, em Paris.