Uma aberração que resiste

Fiquei chocado ao ler, no “Globo”, que a edição digital do livro-manifesto de Hitler, “Mein kampf” (“Minha luta”, em português), teve um aumento súbito nas principais livrarias digitais do mundo. Em especial, preocupou-me a informação de que uma pequena editora brasileira vendeu, para sua surpresa, 509 livros, de 1º a 9 de janeiro do ano corrente, ou seja, mais de um exemplar a cada 30 minutos. Além disso, para que não pareça apenas uma peculiaridade nossa, há registro de que o manifesto de Hitler figura com destaque nas listas de venda de e-books da Amazon nos Estados Unidos e na Inglaterra. Por que esta atração, pelo menos esta curiosidade?

Assim como Stalin, Adolf Hitler foi um genocida, um monstro, responsável por terríveis crimes contra a humanidade. “Mein kampf” não é um livro qualquer, mas um programa de uma política perversa que foi meticulosamente implementada. Para entender melhor este personagem funesto, pode-se ler uma boa biografia e há dezenas delas. Eu mesmo li um esplêndido livro de Ian Kershaw, um grande historiador inglês, que, em 900 paginas, esmiúça e procura entender a trajetória de Hitler. Mas “Mein kampf”, ao contrário, é um panfleto. Escrito em 1926, tornou-se o guia de ação para os nazistas, e ainda hoje influencia os neonazistas. Que, por incrível que pareça, ainda os há, até na Grécia, berço da civilização ocidental.

Assim como Stalin, Adolf Hitler foi um genocida, um monstro, responsável por terríveis crimes contra a humanidade

No entanto, no site Yahoo Resposta, à pergunta por que Hitler odiava tanto os judeus, a melhor resposta selecionada foi a seguinte: “Me pergunto se o destaque dos judeus em todas as áreas (científica, cultural, esportiva, financeira, etc.) não teria contribuído para odiar um povo que abalava a desejada superioridade ariana, preconizada por Hitler”. Não creio que seja a melhor explicação, pois o ódio nazista não se orientava apenas contra os judeus, ainda que fossem o alvo principal, mas também contra os ciganos, os homossexuais, os negros e outras minorias que certamente não podiam ser descritos como “ameaça à superioridade ariana”.

Não sou judeu, mas tenho grande admiração por esse povo que sempre se destacou, em especial, por sua cultura e talento de bem fazer. Uma breve avaliação da lista dos agraciados com o Prêmio Nobel, desde sua criação em 1901 até hoje, revela que, das 850 personalidades agraciadas, 180 são judeus. Hitler, ao contrário, era um ignorante, um frustrado, cuja maior habilidade era inspirar o revanchismo, o ódio, que desde o começo dos anos 20 tinha as obsessões que “Mein kampf” destila. Este ódio encontrou terreno fértil numa Alemanha prostrada pela depressão econômica e pela hiperinflação.

Os que compram o e-book devem ser pessoas que anseiam por regimes de força. Em nosso tempo, quando os direitos humanos, a tolerância e o respeito à diversidade das pessoas tornaram-se as normas básicas do comportamento dos indivíduos civilizados, ler “Mein kampf” é uma aberração, pois não é um livro, mas uma trombeta do Apocalipse.

Fonte: O Globo, 20/01/2014

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