Uma ameaça ao agronegócio

O governo não está pagando a sua parte dos prêmios dos seguros rurais. O risco disso é despertar nas seguradoras o desinteresse pelas apólices à agricultura

Ao longo das últimas duas décadas, o Brasil se transformou numa das grandes potências agrícolas do mundo. Na base disso está a parceria extremamente bem sucedida entre empresas e institutos de pesquisa, como a Embrapa e a Escola Luiz de Queiroz, e os produtores privados. Mas se o governo teve sensibilidade para investir na pesquisa, até há pouco faltou visão do que acontece no resto do mundo e a agricultura brasileira ainda paga o preço de não ter as mesmas ferramentas empregadas pelos EUA e União Europeia na defesa de seus agricultores.

De alguns anos para cá este quadro começou a mudar. O governo passou a incentivar o campo, aumentando a injeção de dinheiro para custear a atividade, e a subvencionar 50% do prêmio do seguro rural dos pequenos produtores.

Os seguros à disposição da agricultura ainda não são equiparáveis aos dos países ricos, mas já avançamos bastante e os agricultores encontram um bom nível de proteção contra os riscos de origem climática.

É de se esperar que nos próximos anos o Brasil tenha um consistente desenvolvimento da carteira de seguro rural. A razão para isso é óbvia e passa pelo dinamismo crescente da atividade agropecuária brasileira somado ao aumento da demanda internacional por alimentos e produtos agropecuários.

Com o governo federal bancando 50% do preço do seguro rural dos pequenos produtores, a procura pelas apólices aumentou e o quadro deve se acentuar à medida que a regra for ficando conhecida e disponibilizada para um maior número de agricultores.

Todavia, este quadro pode ficar comprometido. O governo não está pagando sua parte dos prêmios. Espera-se que isto seja um acidente pontual, fruto de problema burocrático que será rapidamente solucionado. Mesmo porque, se não o for, as seguradoras podem se desinteressar do segmento.

Elas já pagaram sinistros, suportaram despesas administrativas e comerciais e acertaram as contas com as resseguradoras que suportam a operação. Quer dizer, estão no prejuízo porque, apesar de arcarem com 100% dos custos, receberam apenas 50% do pagamento. Como a ordem de grandeza envolvida é significativa, a inadimplência do governo compromete o resultado de quem atua no ramo e pode levar ao desinteresse por este tipo de negócio.

Eu não imagino este cenário, até porque o governo sabe da importância do agronegócio, não apenas como gerador de divisas, mas, principalmente, como gerador de desenvolvimento e estabilidade social.

Aceitando que a demora no pagamento dos prêmios é pontual, a questão seguinte é como fazer para enfrentar as consequências das mudanças climáticas, que estão afetando o Brasil de forma contundente, tanto no excesso como na escassez de água.

Exemplo disso é o Rio Grande do Sul. A realidade gaúcha é dramática. Enquanto parte do estado sofre uma severa estiagem, outra é afetada pelas tempestades de verão que se abatem sobre eles com intensidade inusitada.

Mas as chuvas ou a sua falta não prejudicam apenas o Rio Grande do Sul. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás assistiram o excesso de chuvas comprometer parte do que seria uma das maiores safras de soja da história nacional.

Vários produtores já suportam quebras que podem chegar a 80% da produção. E, lamentavelmente, a grande maioria não está segurada contra os riscos climáticos. Ou seja, não transferirão os prejuízos para o seguro, o que os obrigará a utilizar recursos próprios para fazer frente às perdas.

Ainda que não cobrindo pragas, os seguros rurais brasileiros já permitem aos agricultores que os contratam respirarem aliviados, depois de serem atingidos por eventos de origem climática.

É necessário que este benefício seja estendido e disponibilizado para todo o universo do agrobusiness. Além disso, o País precisa desenvolver apólices mais abrangentes, mas isso só vai acontecer se o negócio for bom para todos. Quanto antes o governo acertar as contas, melhor para o Brasil.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 28/03/2011

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