Ao invocar o conceito marxiano de “alienação”, e dizer que o mesmo “forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos” , o Papa Bento XVI parte de um pressuposto, o de que as pessoas têm um desejo não satisfeito de realização . Pelo menos, assim pensava Karl Marx, em quem o papa se baseou. Não esqueçamos que tudo em Marx corrobora, teleológica e objetivamente falando, para um colapso do capitalismo. Não fosse isto não haveria nada demais em citar Karl Marx. Nada de mais, bem como desnecessário, pois alienação pode ter um significado bastante genérico como “falta de percepção de significado”. Mas, se entender que o significado de algo corresponde a mudar uma realidade criando um novo mundo , o autoconhecimento enquanto ser alienado para não alienado significa, no entendimento marxiano, passar de “classe em si” para uma “classe para si”. Sim, desconsidera-se o individuo para pensarmos em uma categoria coletiva, a classe social.

Para que o conceito marxiano de alienação faça o mínimo sentido é necessário que as pessoas (classe, na linguagem marxiana) tenham o mínimo desejo de mudar esta realidade. Neste particular sentido, “alienação” não é, portanto, um conceito solto no espaço. Ele se prende a uma teoria geral do capitalismo. Isto é diferente de pensarmos a alienação como resolvida ao voltarmos ao estado original da produção, quando um artesão não só produzia, como distribuía o fruto de seu trabalho sabendo muito bem ao que se destinava. Para Marx, esta não seria uma solução, pois não cabia como alternativa a abdicação da crescente utilidade marginal das benesses capitalistas. Assim, não se poderia revolucionar tendo como meta, por exemplo, a miséria feudal.

O papa acusa Marx de ter um conceito limitado de alienação, como derivado de seu “materialismo” entendido aqui como economicismo. Para Marx, no entanto, não era bem assim. Não era assim por que o materialismo de Marx não era alvo a ser atingido, um pressuposto para a ação, mas método. Equivocado, mas método de análise. Enquanto que o papa Bento almeja um mundo não ordenado pelo “materialismo”, Marx também almejava. A diferença, segundo a observação papal, é que Marx só via a opressão econômica. Nisto, pelo menos de modo explicito, é que o papa diz divergir do filósofo comunista. Em que pese à diferenciação formal entre ambos, há uma incrível semelhança na crítica ao capitalismo calcada em um ideal de harmonia. Outra semelhança não explicitada reside no fato de que tanto o catolicismo quanto o marxismo se pretendem explicações finais e abrangentes o suficiente para encerrar o veredicto sobre todas as mazelas sociais. Trata-se de teorias holísticas neste sentido.

Embora não esteja explícito, me pareceu que a crítica papal seja ao sentido de auto-realização inscrito no consumismo. Mas, sinceramente, quem “se realiza” consumindo? O consumo, assim como a renda ou o lucro “não realiza ninguém”. Eles nada mais são do que índices da própria realização, em um sentido bem estrito, já consumada. Quando eu compro livros ou cds (sim, ainda os compro) não estou “sendo realizado”, mas “me realizo” pelo meu trabalho como professor. Neste caso, o ato de consumir é mera decorrência. Que o papa não veja assim é direito seu, que ele ache que pensemos o contrário, nos auto-realizando através do consumo é um erro grosseiro, uma pressuposição de que quem atua no mercado não passa de autômato sem vontade e consciência próprias.

Auto-realização no sentido estático de se realizar, finalizar, acabar vai, inclusive, em sentido contrário ao próprio significado do capitalismo e sua economia de mercado pautados na diversificação dinamicamente crescente. Se o consumo é valioso para nossas vidas é por que ele pressupõe algo que não é consumo, para além da própria necessidade, mas na auto-estima derivada de uma conquista individual. E esta não é um objetivo final, mas precondição para continuarmos trabalhando e, de vez em quando, diariamente, mensalmente também consumindo. Mas, sinceramente, como falar a marxistas ou aos espíritos religiosos mais ortodoxos que podemos ter uma consciência e livre-arbítrio pautados por uma moral que não seja hierarquicamente superior ao conceito de indivíduo?

Lembremos que os modelos de auto-realização, isto é, de seres não alienados em Marx são cientistas, filósofos, artistas, mas não os proletários! Ou seja, toda a retórica marxiana se baseia em uma revolução pautada na aliança entre operários e camponeses, mas os próprios modelos de integridade intelectual dados por Marx não estão nestas classes. Que o marxismo inclua erros de previsão histórica (que nem deveriam ser o objeto de investigação social, mesmo) e outros intrínsecos ao seu método ao desconsiderar os indivíduos como principais elementos e agentes de uma lógica social, não é nenhuma novidade. Mas, ao se basear em conceitos tomados soltos de uma teoria totalizante (que deu margem a um sistema totalitário…), o sumo pontífice cometeu um grave “pecado” para a lógica ao atribuir uma causa – o consumismo – a uma conseqüência – a alienação –, que nem sequer apresenta o status de ser um fato. Ao genérica e grosseiramente, identificar empregadores como “bandidos” para, parcialmente, argüir sobre os “males civilizacionais” lançou mão de uma lógica pouco celestial, para não dizer infernal mesmo.

Se a democracia para uma leva de socialistas pós-Muro de Berlim se tornou um conceito a considerar ou uma maneira conjunta de gerir os destinos da linha de produção fabril (e assim escapar da alienação), também não salva Marx que, reconhecidamente, desdenhava as possibilidades da própria democracia. E cá entre nós, imagine a bagunça derivada da ausência de meritocracia no ambiente fabril. Isto não tem coerência, exceto se o papa imaginasse dividir seu poder com níveis inferiores da hierarquia eclesiástica. Acho que não…

Se para Marx, a alienação residia no desconhecimento de todo processo de produção no qual participa o trabalhador, a critica explícita do papa é quanto à compulsão ao consumo. Como antípoda tanto Bento XVI, quanto Marx advogariam um utópico estágio de consciência e auto-realização. O segundo no comunismo, o primeiro em uma sociedade pautada por valores religiosos. Não sei bem como o papa definiria esta, mas me arrisco a dizer que implica em um estado não laico a tomar como exemplo as mais recentes críticas do Vaticano a ausência de referências às “raízes cristãs da Europa” na nova Constituição da União Européia. Ou seja, contra uma das maiores realizações da humanidade que é a separação entre estado e igreja.

Os que prontamente saíram em defesa do papa assinalaram as diferenças de seu pensamento em relação ao de Marx. Pois bem, não são só diferenças. As semelhanças entre o marxismo e conservadorismo papal são fundamentais para se entender as possíveis conseqüências de sua análise. Além da incompreensão da natureza do trabalho industrial e da coordenação em atividades complexas como a economia de mercado enseja, está a recusa em considerar as trocas entre valores como algo não superável, mas sim desejável para a verdadeira harmonia social. Embora Marx definisse seu socialismo como “cientifico”, no que estava inteiramente errado, o pensamento papal também tem um parti pris semelhante ao não partir do que é o ser humano e sua convivência em sociedade, mas o que ele deveria ser. Sua tentativa se resume em imputar às sociedades uma forma de agir, mal definida, e pautada em um voluntarismo utópico no qual os indivíduos abdicariam de seus desejos pessoais. Assim como Marx também procurou se distinguir de seus pares socialistas ao buscar “condições objetivas” de superação do capitalismo, o que o guiou foi uma forte ilusão de um sistema ideal (“ideal” para ele, bem explicado). O saldo tenebroso disto já se conhece bem, com seus 100.000.000 de mortos. Já o saldo dos tempos em que a igreja mandava e desmandava mundo afora parece distante… Especialmente quando não se percebe (ou se lembra) a gravidade de seus atos e prerrogativas.

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