Ausência é morte. Eu — com a conhecida modéstia dos cronistas nacionais e como fabricante de um texto que, acentuava Nelson Rodrigues, é “um gênero próprio para o furto de galinhas” — digo que retornar é outro suplício. Não leva ao túmulo, mas se parece com o ressurgir dos mor tos. Que retornam — como ocorre no nosso mundinho político — cada vez mais mortos pensando que estão vivos.

Pensei num grandioso retorno e a realidade nacional foi pródiga. Deume a possibilidade de comentar a impensável cópia do Sarney pelo Lula, ambos defendendo a excepcionalidade pessoal como remédio para falcatruas e argumentando que um crime cometido por todos não é crime, mas hábito. Lula usou esse mesmo argumento para transformar o mensalão num caixa dois que, embora criminoso, sendo uma prática geral, teria a brasileiríssima capacidade de englobar a lei. Como não falar dessa comunhão entre o operário-presidente, eleito pelo partido que iria mudar os rumos da política nacional, e o velho coronelismo nortista típico dos donos do

poder? Haveria algo mais espetacular do que ver o “cara” — o defensor dos oprimidos — curvar-se diante de biografias que, no Brasil, aristocratizam os ocupantes de cargos públicos, transformando-os em meliantes acima das leis? Quando — Deus do céu! — iremos politizar (para nos livrar) do “Você sabe com quem está falando?” Mas há uma segunda possibilidade.

Refiro-me ao caso do Obama, que defendeu um amigo professor de Harvard, igualmente negro, preso por um policial impecável por desacato à autoridade em sua casa, na igualitária e culta Cambridge, Massachusetts. O conflito entre heróis (policiais e professores são, nos Estados Unidos, profissões modelos; e não, respectivamente, bandidos e idiotas, como entre nós) num país que honra a igualdade gerou polêmica. Como tomar partido quando o próprio presidente-negro entra no assunto e chama o policial de stupid (burro ou grosso em linguagem de esquina), logo que soube do evento? Mas, eis a questão, como não ser injusto, exceto quando honestamente assumimos nossas paixões e interesses e partimos para um terreno neutro? Uma área na qual pode/p>

mos ver alguns elementos do conflito? No caso, algo impensável no Brasil: o fato de que o presidente não pode usar o “Você sabe com está falando?” para o policial, porque ele não tem que se meter com a autonomia da policia de Cambridge. Mas como o professor usou um “Você sabe com quem está falando?” com o policial e foi preso, como empacotar essa situação onde todos têm e não têm razão? Fazendo como Obama. Livrandose do enjaulamento político da onipotência presidencial (ou da simplicidade todopoderosa das mídias) e pedindo desculpas.

Pedindo tempo para reconsiderar sua conduta, justo por ser o ator mais importante da cena.

Vejam o contraste.

Se o Lula-presidente entra cada vez mais na jaula que até hoje aprisiona os velhos coronéis da política nacional, assumindo uma arcaica postura hierarquizada, autoritária e aristocrática; Obama trocou o papel de presidente pelo de professor convidando, tanto o policial quanto o catedrático de Harvard, para uma igualitária cerveja e, suponho, uma discussão das relações entre brancos e negros.

Ai está um incrível retorno. O homem mais poderoso do mundo sai do papel de supremo magistrado da nação para fazer algo jamais cogitado no Brasil: torna-se um igual. Desculpase por sua reação, classificandoa de enviesada. Convida os implicados para um encontro sem o qual nenhuma democracia liberal sobrevive: o sistemátic o confonto entre costumes estabelecidos (sempre implícitos, preconceituosos ou enviesados) e leis (que nada mais são do que costumes explícitos) que devem valer para todos.

Como terceiro retorno, pensei em chamar atenção para algo alarmante.

As dificuldades decorrentes do fato de termos uma república que funciona com códigos morais do império. Pois ainda não discutimos se devemos ser ladrões ou honestos porque gostamos de confundir probidade com burrice e realismo político com a ideia de que os fins justificam os meios. É complicado ter democracia liberal enquanto

acharmos que certos indivíduos precisam de CPI para lhes dizer o que deveria estar dentro de suas consciências: que os recursos públicos não pertencem aos seus administradores, mas ao povo. Ou pensarmos que a igualdade pode ser um valor sem termos a necessidade de diuturnamente fazer aquela dura conta de chegar entre motivos pessoais (costumeiros, mas às vezes ilegais ou antiéticos) e a honra que o cargo público demanda. Entre a colocação para o namorado da netinha querida ou o emprego publico a ser preenchido pelo mais eficiente; onde ficar? Ficamos com o Lula, vilipendiando e, pelo peso do cargo, desqualificando seus críticos como imbecis; ou levando a sério os argumentos, porque — afinal — somos todos capazes de ver o outro lado mas, para tanto, precisamos sair um pouco do nosso? Como enxergar o que, nas democracias, é chamado “conflito de interesses” sem esse exercício de sair de nossas posições para pensar num mistério chamado “Brasil” que só assim pode ser construído como algo maior que nós?

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