Uma conversa sobre eleições

“O próximo presidente será o Lula”, disparou Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, em meu escritório ao final de 2001. Um ano antes das eleições, a previsão certeira provocou expressões de incredulidade entre os presentes. Agora em 2009, em caminhada pela praia neste fim de semana e também um ano antes das eleições, Montenegro formula seus prognósticos para 2010.

Em sua avaliação, Lula sai do Palácio pela porta da frente, e entra na História, junto de Vargas e Juscelino, como um dos melhores presidentes que tivemos. Resistiu ao imperativo oportunista de esticar o mandato. Estaria outra vez reeleito, mas teve a maturidade de não se aventurar no script bolivariano, apesar da fragilidade do Congresso em meio aos escândalos, dando extraordinária contribuição à democracia brasileira.

Montenegro atribui as dificuldades de uma candidatura presidencial do PT aos escândalos em torno de práticas político-administrativas inaceitáveis, que atingiram o partido e derrubaram seus potenciais candidatos de maior visibilidade eleitoral. O que deixou sua candidata em desvantagem no confronto de currículos com alternativas muito experientes, de carreiras políticas consistentes e de boa densidade eleitoral.

“Serra foi prefeito, deputado, governador, senador, ministro e candidato a presidente. Aécio é de boa estirpe e fez dois ótimos governos em um estado eleitoralmente decisivo. Ciro derrubou o coronelismo no Ceará também em dois governos de ótima qualidade. Foi deputado federal, ministro e já disputou duas campanhas presidenciais. Marina Silva foi deputada estadual, senadora e ministra, mulher como Hillary Clinton, com a cor de Barack Obama, com origem humilde similar à de Lula e com mais do que uma agenda, uma coerente história de vida em defesa do meio ambiente. São currículos políticos robustos, fazendo parecer uma criação artificial a candidatura situacionista”, explica Montenegro.

E prossegue: “Seria natural o esfriamento das eleições presidenciais por várias razões. À medida que se consolida a democracia, tornam-se corriqueiras as eleições a cada dois anos. Trata-se da primeira eleição sem Lula, e com o PT mais prático, despertando menos paixão. A própria lei eleitoral está bem mais rígida em relação à propaganda. Os escândalos afastaram os financiadores de campanha, tanto pessoa física quanto jurídica. Outro fator é a crescente utilização da internet, um instrumento poderoso, mas sem o calor das ruas.”

Para Montenegro, a ascensão de Marina Silva nas pesquisas de opinião mudou radicalmente o quadro eleitoral. Foi quando Ciro Gomes também começou a subir, denunciando práticas políticas do Antigo Regime e qualificando como imoral e oportunista a aliança do PT com o PMDB. O verde de Marina e a indignação de Ciro injetaram emoção na campanha e desarmaram o quadro anterior aparentemente congelado entre as candidaturas Dilma e Serra.

(O Globo – 28/09/2009)

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