Uma educação de faz de conta

Por Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo

Há décadas que o Brasileiro ouve sem parar a “lenga-lenga” de que Educação é prioridade nacional, estadual, regional, municipal e até mesmo, distrital. Há décadas, também, que ouvimos a retórica de que tudo e mais um pouco deve ser feito pela Educação e que esta representa a maior prioridade em políticas públicas e privadas do, e, no, país. Não se engane e nem se alegre: tudo isso não passa de retórica e de mentira. Aliás, retóricas e mentiras. Muitas mentiras. Assim mesmo, no plural.

Se as autoridades brasileiras (em educação ou não) tivessem realmente o apreço pela educação que eles dizem que tem, o país teria parado quando, após a divulgação, na penúltima semana do mês de fevereiro de 2009, do resultado de um teste realizado em São Paulo para professores onde, segundo a própria Secretaria Estadual de Educação (e, acreditem se quiserem), três mil professores tiraram nota zero e mais da metade não conseguiram atingir a nota mínima exigida. Ou seja: a média. Se as autoridades brasileiras tivessem a Educação como prioridade número um, como eles dizem que tem, tal desempenho deveria ter provocado alvoroço muito maior que o provocado pela crise econômica mundial. O Brasil teria parado, as aulas teriam sido suspensas, reuniões e mais reuniões estariam sendo realizadas e várias forças tarefas teriam sido mobilizadas em todos os segmentos da sociedade e nos mais variados cantos do Brasil para tratar de algo tão catastrófico, sério, perigoso e, levianamente, apenas noticiado.

Mas, quando pensamos que já vimos de tudo o que pode haver de pior no nosso país, eis que nos surpreendemos sempre com algo a mais. Explico: através de uma liminar, uma juíza de não sei de onde “caneteou” que, até mesmo os professores que tiraram nota zero, estão aptos para assumir as disciplinas que eles sabem “bulhufas” e ministrá-las em salas de aula para alunos que também aprenderão “bulhufas”. Agora, imagine a cena: um professor que não sabe a diferença entre um substantivo e um adjetivo ministrando aulas de português e sendo perguntado por um aluno onde ele precisa usar crase e por que. Dá para imaginar e acreditar nisso? O pior é que dá, pois esse teste, apenas veio nos revelar aquilo que já existe há muito tempo e que todos nós também sabemos há muito tempo. Quer uma prova disso que estou falando? Pegue um texto qualquer, em inglês, de duas páginas (apenas de duas páginas. Não precisa mais do que isso) e peça para o seu professor de inglês ler o mesmo em português e veja o resultado. Depois que ele fizer essa leitura (a chance dele não fazer é de quase 100%), peça para ele ler novamente outro texto, também de duas páginas, só que no caminho inverso: um texto em português para ele ler em inglês e espere novamente pelo resultado. Se ele não conseguir fazer tal proeza que é o básico do básico do básico para um professor de inglês, pegue suas coisas e vá embora pra casa, pra praça, pro clube, pra praia ou, seja lá pra onde for, mas não fique na aula (aula?) dele. Se ficar, você estará se enganando.

Agora, bom mesmo foi o argumento da juíza (que, apenas a título de sugestão, bem que poderia colocar seus filhos nas escolas onde esses professores vão lecionar), para justificar o que em nenhum lugar normal do mundo se justifica: “os alunos não podem ficar sem aulas.” Mas é claro que podem. O que não deveria poder era um monte de alunos ficarem fazendo de conta que estão tendo aulas com professores que (estes sim, precisam de aulas) não estão nem um pouco preparados para o exercício da função. Imagine se a moda pega e se espalha por outras áreas de conhecimento. Pense em alguém se submetendo a uma cirurgia com um Médico que tirou nota zero na disciplina de cirurgia geral. Ou alguém tomando um ônibus com um Motorista que tirou nota zero na disciplina de direção de rua. Ou alguém comprando um apartamento planejado por um Engenheiro que tirou nota zero na disciplina de cálculo estrutural. Tudo isso é tão impensável que nem em fantasia nos permitimos fazer tais imaginações. Mas, inexplicavelmente, isso é real na educação que nós fazemos e temos.

Mas, merecemos cada centavo que pagamos a cada um desses professores para não sermos ensinados por eles e/ou para termos algo muito pior que isso: sermos mal ensinados, mal preparados. Alguém viu, ouviu ou soube de alguma autoridade política indignado com essa notícia? Algum Governador; Prefeito; Vereador; Senador ou outro político qualquer que sempre trás na boca a retórica de que Educação é prioridade? Não? Nem eu. E alguma autoridade civil? Entidade de classe? Algum representante religioso? Pais de alunos? Alunos? Porque será que ninguém, em nenhum lugar do país se indignou com essa notícia? Perdoem-me os que me acham crítico demais, mas essa falta de indignação só me parece uma coisa: tudo isso é feito para ser exatamente da forma que é. Isso não é um acidente.

Outra prova disso: há exatos seis meses, uma pesquisa com pais de alunos trouxe o seguinte resultado: a imensa maioria dos pais de alunos acha que a Educação dos seus filhos é excelente e ótima. Foi por isso que nenhum deles falou absolutamente nada com o resultado dessa avaliação realizada em São Paulo e tal pesquisa nos revela algo ainda pior: os pais dos nossos alunos não são preparados para serem pais de alunos. Pais de filhos, talvez, mas, pais de alunos, definitivamente não.

E o ensino superior? O que falou a respeito de tamanha tragédia? Nada também. Mas esse nada falado do ensino superior, ao menos se justifica: dentre todos os culpados por esse fiasco educacional nacional, a Educação Superior do país é uma das mais responsáveis. É na Educação Superior que são formados ou deformados os outros formadores educacionais e esse resultado catastrófico na Educação Infantil e média do país é, portanto, um “raio X” do nível e da qualidade da formação superior que temos no país. Ou seja: os ossos de um representa o esqueleto do outro porque no esqueleto do outro estão os ossos do um.

Enquanto isso nada muda, nada para, nada é modificado, nada é destruído e nada é construído porque tudo deve continuar sendo como sempre foi e ninguém pode ser responsabilizado por nada, pois enquanto existir um sistema para ser o demônio de todos, todos nós continuamos sacros e santos, vítimas puras de um mundo etéreo e mau a nos hostilizar.


Pedro Paulo Rodrigues Cardoso de Melo é Psicólogo Clínico e Empresarial, Psicopedagogo, Professor de Graduação e Pós-Graduação.

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2 comments

  1. ana paula

    nossa concordo plenamente!!!!!!!!!!1
    estou cursando faculdade particular, um curso de licenciatura, posso adiantar que é uma vergonha, como diz Boris Casoi.
    se os alunos desejarem fazer a diferença precisam correr atrás, ser autodidate entende? além de professores mal instruidos ainda temos que os engolir guela abaixo em relação as rinchas, parece brincadeira de criança né, mas nao é. pode crê.
    Hontem estava refletindo: para que estou me formando, apenas para conseguir emprego e me sustentar? Te Juro depois de pensar mais um pouco decidi, se for para formar debiloides que nem sequer conhecam seus direitos e deveres sinceramente nao quero.