Luiz Felipe Lampreia Instituto Millenium

Não há dúvida que a recente eleição de Hassan Rouhani para a presidência do Irã marcou uma grande inflexão naquilo que parecia ser um rumo de confrontação inexorável com os países ocidentais e Israel, cujo desembocar anunciava-se perigoso para a paz do mundo. Ele venceu esmagadoramente as eleições presidenciais com claro repúdio popular aos ultraconservadores, que pareciam ter o monopólio do poder no Irã. Foi um sinal claro que a sociedade iraniana deseja uma mudança de rumo ou, pelo menos, de ênfases.

Hassan Rouhani sucede a um extremista como Mahmoud Ahmadinejad, que afundou o Irã economicamente, tendo tido apenas por um momento breve e infrutífero apoio do presidente brasileiro e do premier turco. O novo presidente é um sopro de ar fresco na cena internacional.

Recentemente, Hassan Rouhani afirmou ao canal americano de televisão NBC que seu governo nunca irá desenvolver armas nucleares e que ele tem plena autoridade para negociar um acordo nuclear com o Ocidente. Na mesma linha, disse que o tom da carta que recebeu do presidente americano Barack Obama foi positivo e construtivo. Por sua vez, Obama afirmou que os Estados Unidos estão prontos a resolver o impasse nuclear “de uma forma que permita ao Irã demonstrar que seu programa nuclear é exclusivamente para causas pacíficas”. O porta-voz da Casa Branca, por sua vez, falou sobre a urgência que existe, pois “a janela de oportunidade está aberta, mas não indefinidamente.”

Recentemente Hassan Rouhani afirmou ao canal americano de televisão NBC que seu governo nunca irá desenvolver armas nucleares

De todo modo, há um progresso surpreendente e bastante auspicioso. Outro sinal encorajador resultou das conversações havidas em Genebra em meados de outubro entre as seis potências mundiais e o Irã. Pela primeira vez, foi emitido um comunicado conjunto que descreveu as conversações como substantivas e com boas perspectivas: um progresso apreciável em comparação com o diálogo de surdos que havia no tempo de Ahmadinejad. Para o vice-ministro do Exterior do Irã, Abbas Araqchi, as partes poderiam chegar a um acordo entre três e seis meses. Estes comentários seguiram-se a uma surpreendente declaração de líder supremo, Ali Khamenei, que afirmou não se opor a concessões em diplomacia e apoiar a flexibilidade. Já o porta-voz da Casa Branca declarou que “a nova proposta iraniana teve um grau de seriedade que não tínhamos visto antes, mas as diferenças persistem e ninguém deve esperar um resultado imediato. E como disse o presidente Obama a história de desconfianças é muito profunda”.

O Irã está em situação econômica muito difícil por obra das sanções do Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos acham-se em posição mais confortável, pois não precisam mais do Irã como durante a guerra do Iraque. Ademais há muitos setores em Washington que se opõem a acordos com o Irã, Barack Obama está especialmente enfraquecido e existe a intransigência de Israel sobre a necessidade de desativar as centrífugas de urânio iranianas. Enfim, malgrado as aparências muito positivas, ainda há muitas incertezas e dúvidas sobre o resultado final das negociações.

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