O mundo público nacional produz uma certa familiaridade com o Demônio. Seria Satanás o responsável pela nossa recorrente incapacidade de vencer a corrupção? Ou, pecadores irremissíveis, estaríamos já em pleno Inferno pensando que vivemos no tal Brasil abençoado por Deus e bonito por natureza? De onde, afinal, vem essa sina de sermos um país, indiscutivelmente e por quaisquer critérios, campeão de políticos pactuados com o Diabo, como temos a desventura de testemunhar diariamente?

Numa versão baiana do Fausto, contada em dias de chuva por minha tia Amália Leopoldina da Matta, o Demo é convocado por um estudante pobre que ambicionava dinheiro e prestígio. O tal ‘sucesso’ que tanto nos fascina, quando arranca uns poucos escolhidos da pobreza, da invisibilidade moral e de um cruel anonimato e os transforma em artistas, ministros, banqueiros, empresários e, sobretudo, em ‘políticos’ de grande valia, indizível honestidade, inestimável riqueza e formidável êxito.

Como esquecer a fórmula convocatória de Lúcifer?

À meia-noite em ponto de uma sexta-feira 13, o estudante chama o Rei do Mal invocando por três vezes o seu nome. Numa nuvem estrondosa de enxofre, ele surge na forma de um senhor elegante: o cabelo cuidadosamente brilhantinado, roupas de grife e, no pulso esquerdo, um esmerado Rolex de político bicheiro. No fundo, seu BMW dourado o aguarda com o motor ligado. Tem no bolso direito a caneta das nomeações que usa para seus projetos.

– Em troca de fama, cargos ou fortuna, preciso apenas de sua alma, diz com voz melíflua de galã de novela. Em seguida, tira do bolso uma lamina com o qual faz uma incisão no pulso esquerdo de ambos. Os sangues se misturam, formando a tinta com a qual o estudante transfere ou concede a franquia, como se diz hoje em dia, de sua alma ao Diabo.

Assinado o papel, Satanás cumpre sua parte, dando ao jovem uma carteira da qual saem sem cessar euros e dólares. Rico, o estudante compra de tudo, substituindo o direito pelo desejo. Pena que, no dia de sua morte, siga sem apelo para o Inferno.

Recentemente dei com uma outra versão dessa história.

Agora, não era mais um estudante quem convocava o Diabo, mas um conhecido senador da República, fundador de mais um partido destinado a salvar o povo brasileiro da exploração e da miséria. Daí, justamente, o motivo nobre da tentativa.

Na hora propícia, o senador chama pelo Diabo, mas o Tinhoso não vem. Cansado de apelar, o senador decide tomar – já pensando numa emenda que vai favorecer um primo-irmão do tio de sua mulher – das suas empreiteiras preferidas, quando o Rei das Trevas apareceu.

– Comprar a sua alma, meu caro Senador? Ledo engano. Aqui estou somente para saborear o uísque. A alma de parlamentares não é mais negociável. Hoje, o Inferno é um espaço dominado pela competitividade neoliberal que vocês – patrimonialistas convictos – tanto odeiam. Fique sabendo Vossa Excelência, nobre defensor do povo e dos aflitos, que atualmente o Averno é muito diferente do vosso Congresso Nacional e demais repartições públicas. Trata-se de um lugar de respeito, onde as fornalhas são acesas na hora certa, não se fazem greves covardes, o combustível jamais é adulterado, não há alianças espúrias com empreiteiras, os funcionários todos chegam na hora certa; e – eis o ponto que vocês, congressistas e brasileiros jamais conseguem entender – todos seguem as regras!

– Seguir regras? Mas isso é humanamente impossível!

– Mas, diabolicamente, é o caso! – reafirma o Demo dando uma boa talagada no Blue Label. Entre os Demônios, sabe-se que sem um mínimo de ordem, de separação entre coisas e pessoas, de uma proibição modesta aqui e ali, o velho e necessário Inferno, do qual sou o atual presidente eleito, estaria impedido de cumprir suas nobres funções.

– ???!!!

– Pois é, nesse outro mundo imaginado pela crônica – continua o velho Satã -, mundo muito mais real do que essas infindáveis notícias das tramóias que fazem parte do vosso vergonhoso cotidiano, sabemos que, sem um mínimo de honra e respeito, o Inferno seria mesmo um inferno. E o Diabo – isso mesmo, eu, o Rei do Mal – seria simplesmente mais um desgraçado brasileiro. Mais um ser sem esperança e espírito, exceto o de lucrar, o de tirar partido de tudo, o de legalizar a desonestidade e de trair a confiança dos outros.

– Mas, vem cá Capeta: e Deus? Afinal, vocês são ou não são contra Ele?

– É claro. Continuamos na velha oposição ao Senhor. Mas ser contra não é trair. Não é ser desonesto ou mendaz. O adversário é necessário para que a Ordem seja mantida. Nossa preocupação com o Brasil é que vocês perderam o sentido dos limites e das normas. Estão correndo o risco de viver algo muito pior que o Inferno.

– Os ‘outros’, como dizia Sartre, arriscou o senador, lembrando de um livro de sociologia.

– Não, Sartre não sabia de nada. O verdadeiro Inferno não são os outros, mas é o caos. Esse caos que vocês estão conhecendo tão bem, respondeu o Demônio sumindo num arroto de enxofre.

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