Uma lição política

Diante de uma situação fiscal que se torna a cada dia mais preocupante, ontem o Senado resolveu se mexer, buscar o entendimento e cortar fundo no orçamento.

Tanto os parlamentares do governo quanto os da oposição concordaram que, sem cortar despesas, o país assistirá à deterioração crescente de sua moeda – com prejuízo para todo mundo. A proposta ainda está em discussão e, após a definição do tamanho do corte, o governo debruçará sobre as despesas e decidirá de onde tirar dinheiro e os programas oficiais que serão mantidos.

A cena acima descrita realmente aconteceu ontem. Nos Estados Unidos. Democratas e republicanos entenderam que a situação fiscal do país exige uma providência drástica e chegaram a um acordo em relação à profundidade do corte: US$ 1,5 trilhão. É muito dinheiro, principalmente quando se sabe que o Orçamento Geral da União, no Brasil, é de R$ 1,96 trilhão, que convertido para a moeda americana alcança US$ 1,2 trilhão.

Ou seja: o Senado dos EUA decidiu não gastar um volume de dinheiro superior à totalidade das despesas federais do Brasil. E, antes que alguém venha comparar o porte de cada um dos países, é importante deixar claro que essa discussão é secundária. Sim. O que menos interessa nesse caso é o volume de dinheiro que deixará de ser gasto.

O fundamental mesmo é perceber que, diante de uma crise que ameaça avançar e contaminar a saúde de toda a economia, os parlamentares resolveram conversar e se entenderam em torno de uma proposta que – lá como aqui – tem um custo político elevado.

Cortar despesas nunca rende votos. Rende, no máximo, reconhecimento da história, consciência do dever cumprido, pensamento no bem-estar geral da nação e outros valores para os quais os políticos brasileiros, pelo menos é o que parece, estão pouco se lixando.

No Brasil, uma proposta como essa jamais teria eco entre os políticos, e o maior obstáculo, pelo que se tem visto nos últimos anos, nem seriam os da oposição. O grande obstáculo ao corte de despesas públicas por aqui tem sido exatamente aqueles que, a princípio, deveriam ser os primeiros a defender o bom desempenho fiscal do governo: os da situação.

O corte das despesas com vistas a melhorar a qualidade dos gastos nos Estados Unidos coincide com a possibilidade de rebaixamento dos títulos do governo americano pelos critérios da agência de classificação de risco Moody’s. A agência, como se sabe, estuda rever a qualificação dos papéis emitidos por Washington que sempre foram AAA para AA.

Diante do impacto que a perda de um “A” pode representar para a capacidade de financiamento do governo (que, com o rating rebaixado, teria de pagar juros mais elevados por seus papéis, sob pena de não conseguir recursos para se financiar no mercado), os parlamentares resolveram deixar de lado as picuinhas.

No Brasil, a cada sinal de alerta dado pela deterioração da qualidade das contas públicas – que pode, no limite, inclusive, trazer de volta o monstro assustador da inflação -, os políticos parecem forçar a pressão pelo aumento de gastos.

Fonte: Brasil Econômico, 15/07/2011

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