Uma licença ambiental mais do que demorada

Uma prova (mais uma delas) da ausência total de coordenação entre os órgãos públicos do país e do descaso do governo para com as empresas e pessoas que dependem de energia elétrica foi dada há dias pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis — o velho e bom Ibama.

Célere, o órgão prometeu apertar o passo e entregar até o mês de julho deste ano (ou seja, daqui a longos sete meses) a licença ambiental para construção das linhas de transmissão que ligarão as usinas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, ao Sistema Interligado Nacional de Energia. O detalhe: a linha foi licitada no final de 2008, e o Ibama, na melhor das hipóteses, gastará quatro anos e meio para expedir a tal licença.

Se os prazos de construção da usina tivessem sido obedecidos e as turbinas já estivessem em operação, como deveriam, não haveria a possibilidade de consumo da energia gerada.

Ela se perderia única e exclusivamente pela inexistência de uma linha para fazer a ligação entre o produtor e o consumidor da energia. Seria um prejuízo monumental de dinheiro, de tempo e de recursos. Outra linha de transmissão, que deve ligar Tucuruí a Manaus e que também já deveria estar pronta, deverá ter a construção autorizada na mesma época.

A falta de chuvas e o baixo nível dos reservatórios mais uma vez surgem como a desculpa para o risco de racionamento que aumenta a cada dia

Por mais argumentos que o pessoal do Ibama reúna para dizer que é preciso analisar o impacto que a construção causará em cada um dos 2.700 quilômetros que a linha percorrerá entre os estados de Rondônia e São Paulo, convenhamos, quatro anos e meio é muito tempo.

Mais tempo do que o mais ineficiente dos órgãos públicos do país mais atrasado do mundo pode gastar para dar conta de uma tarefa como essa. A questão da eletricidade no Brasil é muito mais séria do que parece. Mais de 10 anos atrás, o argumento de que o risco de apagão vivido pelo país era resultado da estiagem e da dependência da energia gerada por hidrelétricas foi rechaçado pelo PT com críticas mais do que razoáveis.

Segundo o partido, que na época ainda pleiteava a Presidência da República, o risco do apagão era decorrente da falta de planejamento e da incapacidade do governo de investir numa matriz alternativa.

Bem, o PT está no poder há mais de 10 anos, tempo mais do que suficiente para livrar o país de qualquer herança, por mais maldita que fosse. E a falta de chuvas e o baixo nível dos reservatórios mais uma vez surgem como a desculpa para o risco de racionamento que aumenta a cada dia.

E o grande problema é que, quanto mais o país crescer, maior será o risco de ficar parado por falta de energia. Num cenário como esse, seria bom que o Ibama resolvesse trabalhar, se mexesse, e entendesse que, se faltar energia, será ruim para todo mundo. Mas que a parte mais salgada da conta sobrará, no final de tudo, para quem prometeu e não cumpriu resolver o problema.

Fonte: Brasil Econômico, 08/01/2013

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