Sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Uma moral relativa

Sobre a polêmica declaração do empreiteiro Marcelo Odebrecht, a propósito da educação moral que dá às filhas, alguns de nossos melhores comentaristas já destacaram essa enorme e perigosa corrupção de valores que se instalou em nossa mais fina elite, incapaz de discernir moralidade pública de um simples código mafioso como a omertá. E presente não apenas no cinismo do corporativismo empresarial, como no sindicalismo selvagem de colocar interesses setoriais acima do interesse público.

Pura ignorância política sobre o verdadeiro sentido da paródia “do fim que justifica os meios”, tomada tão simplesmente como o pastiche do vale-tudo.

À guisa de exemplo, vale comentar o lúcido artigo de Nelson Motta (publicado no GLOBO na edição de 4 de setembro), sobre o que ele denomina como “a nova matriz moral” da política brasileira, uma vez que ele tem se diferenciado de forma singular de uma classe artística geralmente comprometida com a produção de conteúdos esquerdistas, mesmo que travestidos de social-democratas.

Se não se trata de uma “nova”, tampouco de “matriz moral”, a alusão ao valor da propriedade e ao roubo como sua negação. Trata-se simplesmente de velha e cínica pseudoargumentação esquerdista sobre um dos maiores valores morais da tradição humanista! Não apenas maximizada pela paródia brechtiana “do que seja um assalto a um banco diante de um banco”, como pelo correspondente e simples pastiche odebrechtiano de que roubar é menos grave do que dedurar!

Pois, a cada povo a elite cultural que merece: o relativismo moral celebrizado pelo chiste esquerdista do dramaturgo alemão e a correspondente carnavalização nacional do empreiteiro endoidecido.

Elites não nos representam, e políticos não dão conta de projeto de nação

Decididamente, nossas elites não nos representam, assim como nossos políticos e demais vizinhos do poder não dão conta de um projeto de nação. Não se reconhecem em sua mais fundamental função, que é a de orientar e servir de exemplo à sociedade. Que somos o resto de nós, cidadãos pagadores de impostos, conservadores em essência e cônscios da importância de valores morais e para além de limites legais.

Marcelo Odebrecht acredita que o prejuízo à imagem da Petrobras é mais importante do que os roubos, as extorsões, o estelionato eleitoral e tudo o mais. Ele acredita que não cometeu os crimes dos quais é suspeito, uma banalização do mal que deve ter feito a filósofa alemã Hanna Arendt se revirar no túmulo.

Relativizar valores morais, como o empreiteiro fez, não é apenas triste. É perigoso para a República e a própria democracia. Pois a diferença de Brecht para Odebrecht é mais do que uma ode. É a corrupção dos valores de quem toma paródia por pastiche.

Fonte: O Globo, 15/9/2015

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