Nasci em setembro de 1986. Quando obtive algum discernimento sobre o que era política, já havia sido implementado o Plano Real. Cresci, portanto, sob a égide da estabilidade econômica. A indexação de preços, a hiperinflação, o plano verão, o cruzeiro-novo, o impeachment, o tetra, tudo isso está hoje, para mim, mais nítido nos livros de história do que na minha memória.

A política despertou-me o interesse na adolescência. Lembro-me bem quando, em 2002, meu caderno escolar era coberto com adesivos da campanha de Lula. E quando, em meados da eleição, passeava pelas ruas do Recife hasteando, na janela do carro, enorme bandeira do PT. Tinha 16 anos. Hoje, passados aproximadamente oito anos da minha pequena – mas intensa – campanha para eleger Lula presidente, tanto o Brasil, como eu, amadurecemos.

O Brasil que conheço é esse que tantos aplaudem: da economia ajustada e do respeito às regras da democracia. E, como bom petista que fui, não poderia deixar de reconhecer a contribuição de Lula nesse processo. E é exatamente sobre essa contribuição que escrevo.

É bom recordar. A partir do início dos anos 1990, o Brasil passou por mudanças importantes em sua economia: o grau de abertura comercial e financeira aumentou; as empresas se tornaram mais competitivas; houve amplo processo de privatização; o combate à inflação se converteu em prioridade; foram adotadas medidas severas de ajuste fiscal etc. No seu conjunto, essas mudanças constituem significativas etapas do processo de transformação da economia, rumo a situação de maior competição com o exterior e envolvem o objetivo de ter indicadores fiscais sólidos, inflação baixa e regras de política econômica relativamente estáveis.

Lula, enquanto foi a Heloisa Helena do seu tempo, jamais se elegeu. Fazia-se o principal nome da oposição, mas não chegava lá porque, como é mesmo?, queria “mudar tudo” — inclusive o que não saberia ou não poderia mudar. Em países em que as instituições funcionam mais ou menos regularmente, esse comportamento costuma ser rejeitado. Lula se elegeu quando deixou claro que, no dia seguinte, se eleito, a vida continuaria seu curso.

A eleição de Lula em 2002 foi resultado de um processo caracterizado por Fábio Giambiagi como o “rompimento com a ruptura”. Nomeado pelas esquerdas como o grande agente das mudanças, Lula garantiu, no poder, a continuidade do – usarei a palavra que o PT demonizava – “modelo”, porém numa conjuntura que lhe foi, até muito recentemente, formidavelmente favorável. A expectativa do caos, presente em muitos setores nacionais e internacionais, deu lugar à certeza do cumprimento das regras. E curioso: esse cumprimento das regras veio, em muitos casos, com laivos de ortodoxia e reverência à ordem que antes contestava.

O governo do presidente Lula deu prosseguimento à política econômica baseada no “tripé” da flutuação cambial / metas de inflação / austeridade fiscal. A estabilidade da econômica permitiu ao país pegar carona no maior ciclo de expansão da economia internacional, de 2001 a 2007. O bom desempenho da economia garantiu a Lula as sobras necessárias para pôr em prática um modelo agressivamente assistencialista, facilmente transformado em apoio popular. Dessa forma, os ricos aplaudem-no porque nada mudou. Os mais pobres aplaudem-no porque tudo teria mudado.

Serei objetivo: Lula fez uma ponte, mesmo precária, entre pobres e ricos e fechou o consenso em torno da estabilidade econômica e do respeito às regras básicas do mercado. É esse consenso, iniciado com as reformas estruturais da década de 1990, que permitiu ao país dar grande salto econômico.

Por outro lado, a ilusão de que o governo de Lula foi o realizador das mudanças que o Brasil precisava mascara a verdadeira opção do PT pelo conservadorismo. É isso mesmo: considero o governo de Lula extremamente conservador. Como? O país abandonou o caminho das reformas: política, administrativa, eleitoral, tributária… Passados os oito anos de governo Lula, continuaremos a ser um dos países do mundo mais hostis aos negócios e ao empreendedorismo. Continuaremos a ter um dos sistemas educacionais mais ineficientes da terra. Continuaremos a ter uma das cargas tributárias mais altas e caóticas do mundo. Continuaremos a ter encargos trabalhistas que oneram os empregados e restringem a criação de empregos. Continuaremos a ser um país fortemente marcado pela cultura patrimonialista, agora acrescido do patrimonialismo sindical da nova classe política que Lula deu à luz. Continuaremos a ser o país do “coitadismo” à espera do “Pai-Estado”. Continuaremos a ser o país do Estado gigante e da sociedade pequena. Continuaremos, enfim, a ser o que éramos.

A estabilidade econômica pode até indicar que o Brasil caminha no rumo certo. Isso não deixa de ser um avanço – se compararmos o Brasil com alguns vizinhos da região, como Venezuela e Bolívia. No entanto, não chega a ser uma evolução. A real herança do petismo é a perpetuação de males que ficam, cada dia, mais difíceis de combater: o assistencialismo clientelista; a tributação excessiva; a multiplicação dos cargos de confiança para os militantes; o estatismo; o patrimonialismo; e a idéia de governar em prol de um projeto de partido que se mascara de um projeto de nação.

Economia e desenvolvimento andam lado a lado. E o maior risco ao desenvolvimento do Brasil é achar que tudo vai muito bem, obrigado. Mudanças são necessárias. A manutenção das políticas atuais pelos próximos quatro anos podem acarretar sérios riscos à economia do país. Entre esses riscos, destacam-se: 1) a deterioração do quadro fiscal; 2) a diminuição da autonomia do Banco Central; 3) o reforço do papel do Estado na economia por meio de: rígida regulação do ambiente de negócios; oferta de subsídio e proteção comercial à indústria; direcionamento político dos fundos de pensão dos trabalhadores das estatais, entre outros.

A nossa História – e a de diversos outros países – demonstra que o único caminho sustentável para retirar uma nação da pobreza são mercados mais abertos e competitivos. Hoje, reduzir a pobreza requer: abertura unilateral da economia; desoneração tributária da folha salarial e da cesta básica; fim dos subsídios aos ricos (leis trabalhistas que concentram privilégios à custa dos trabalhadores informais e desempregados; sistema de pensão que beneficia os funcionários públicos; sistema universitário gratuito ao qual o pobre raramente tem acesso etc.). As redes de combate à pobreza com inserção via mercado permitem que a população tenha acesso a produtos mais baratos e de melhor qualidade: carros asiáticos bons e baratos, roupas de todo o mundo, alimentos de qualquer tipo. Além disso, no mundo globalizado, a competitividade das empresas é fundamental para o sucesso econômico de longo prazo.

O Brasil que surge com Lula é novo, pelos frutos colhidos pela estabilidade econômica. Porém, é também mais do mesmo. Lula, ainda que com o charme irresistível do “retirante” que superou todas as dificuldades e chegou ao topo, não inovou. Não fez a revolução que as esquerdas queriam — a não ser as cosméticas — e, claro, não operou as transformações estruturais que precisaríamos.

Não podemos nos deixar iludir pela euforia e pelas estatísticas. Os entraves ao crescimento são hoje mais graves que eram no passado. Resta saber que agenda estamos buscando: a da manutenção ou a da mudança?

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2 comments

  1. Diogo, seu texto não deixou espaços para comentários adicionais; escrevo apenas parabenizando pela ótima redação!
    Infelizmente poucos tem essa consciência.

  2. Muito bom o texto. Sintetizou muito do que eu falo todos os dias. Ótima referência a Giambiagi.

    Parabéns