Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Uma nova chance para o Brasil

Os erros dramáticos e recorrentes de política econômica dos últimos anos, aliados aos graves casos de corrupção nas empresas estatais, fizeram com que o Brasil caísse numa crise aguda, com poucos precedentes na nossa história. Será que estamos condenados a um longo período de estagnação econômica, com prejuízos sérios para as gerações futuras? Ou há algo de bom a ser retirado desses tempos difíceis, algo que poderá mudar o Brasil?

Na verdade, os nossos problemas econômicos vêm de longa data. A figura ao lado mostra o crescimento da produtividade do trabalho (PIB por trabalhador) e do bem-estar médio (PIB per capita) de 1982 até 2012. Podemos notar que, embora o PIB per capita tenha aumentado 50% nesse período (de R$ 16 mil para R$ 24 mil), a produtividade média do trabalho aumentou somente 14% (de R$ 43 mil para R$ 49 mil). Isso ocorreu porque grande parte do aumento do PIB per capita decorreu do aumento da parcela de trabalhadores com relação ao total da população.

Ou seja, cada trabalhador brasileiro produz hoje em dia praticamente o mesmo que produzia há 30 anos. Na Coreia a produtividade aumentou 200% no mesmo período. Se quisermos melhorar a vida das gerações futuras e resolver nossos problemas fiscais, cada trabalhador brasileiro terá que produzir muito mais, ou seja, a nossa produtividade terá que aumentar.

Pode ser que a grave crise atual represente as dores do parto de uma nova sociedade, com uma cultura diferente

Entre 1960 e 1980 a produtividade cresceu bastante no Brasil, devido aos processos de urbanização e industrialização, que ocorreram com pesada intervenção estatal. Entretanto, a distribuição de renda piorou nesse período, já que a escolaridade dos trabalhadores nessa época era muito baixa e também porque o valor real do salário mínimo diminuiu muito. Assim, os constituintes de 1988, supondo que a produtividade brasileira continuaria a crescer como nas décadas anteriores, houveram por bem incluir na Constituição várias demandas sociais, para distribuir melhor os frutos do crescimento econômico que viria a seguir. Só que o crescimento não veio.

O pequeno ciclo de crescimento que ocorreu na última década teve por base o aumento de emprego no setor de serviços de baixa qualificação, que serviu para incluir socialmente um grande contingente de trabalhadores pouco qualificados. Esses trabalhadores ingressaram no setor formal e passaram a contribuir para a previdência, o que melhorou o quadro das contas públicas. Mas, não foi possível sustentar esse crescimento devido à falta de crescimento da produtividade. Isso, além dos grandes subsídios e desonerações para grandes empresas, fez com que as contas públicas piorassem acentuadamente nos últimos anos.

Mas por que nossa produtividade não cresce? Temos um grave problema cultural e institucional no Brasil. Parte das nossas empresas prefere se aproximar do governo e contribuir para as campanhas políticas de vários partidos para obter favores legais e ilegais ao invés de buscar o crescimento através de redução de custos e aumento da produtividade. A taxa de inovações tecnológicas e os gastos com pesquisa e desenvolvimento (P&D) praticamente não se alteraram nas últimas décadas. É por isso que as nossas exportações não aumentam, apesar da desvalorização cambial recente.

Não temos condições de competir internacionalmente porque grande parte das nossas empresas não é competitiva e só sobrevive com favores e proteção do governo. As empresas que preferem se manter distantes do governo têm dificuldades para crescer, tendo que enfrentar a burocracia, elevada carga tributária e péssimo ambiente de negócios.

Mas qual a boa notícia no meio disso tudo? A boa notícia é que está em andamento um dos processos judiciais mais importantes da nossa história, a Operação Lava-Jato, que está julgando os graves crimes de corrupção recentes. Vários empresários e políticos que cometeram delitos estão indo parar na cadeia e as instituições estão funcionando muito bem. Além disso, o STF confirmou a proibição da contribuição privada para campanhas eleitorais. Isso pode fazer com que as empresas a partir de agora prefiram investir em produtividade a se envolver com as várias esferas de governo, pois os riscos de isso acabar mal aumentaram bastante.

Várias pesquisas recentes mostram que o que determina o crescimento de longo prazo de um país é a interação entre sua cultura e suas instituições. Instituições políticas e legais aliam-se a aspectos culturais, tais como confiança no próximo e honestidade para promover o crescimento no longo prazo. Pode ser que a grave crise atual represente as dores do parto de uma nova sociedade, com uma cultura diferente, em que empresas e pessoas vão preferir investir em esforço e trabalho ao invés de buscar favores das várias esferas do governo o tempo todo. Será que essa visão é excessivamente otimista? Só o futuro dirá. Boas festas a todos!

Fonte: Valor Online, 18/12/2015

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