Uma onda que ameaça atravessar o Atlântico

Niall Ferguson é um brilhante professor de história e administração na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Polêmico e demolidor em suas argumentações, honra a tradição de seu conterrâneo Adam Smith, considerado pai da ciência econômica sem ter sido “economista” (ocupação inexistente na Grã-Bretanha do século XVIII). Ferguson voltou à carga há dias, num artigo no jornal americano Financial Times, com título profético: “A crise da Grécia chegará aos Estados Unidos”.

Como um médico sanitarista em observação dos estágios de propagação global de uma pandemia, o escocês desmentiu a contraprofecia de Timothy Geithner, secretário do Tesouro dos EUA, uma vez posudo, e hoje assustado e perplexo diante do volume de ameaças medonhas que ainda pairam sobre a economia da nação em suas mãos. De passagem, Ferguson deixa claro que o problema não é localizado. Em sua lógica da “geometria fractal da dívida”, ele vê o mesmo padrão na Islândia, na Irlanda, no Reino Unido, nos EUA e em outros países, apenas em tamanhos diferentes. Isso sugere que a crise grega pode se espalhar pela Europa, atravessar o Canal da Mancha e, eventualmente, o Oceano Atlântico. O ruidoso Ferguson conclui seu pensamento citando o assessor-chefe de Obama, mas antes professor e presidente de Harvard, o economista Larry Summers, que, em tom irônico, havia deixado no ar a pergunta: “Até quando a nação mais endividada do mundo continuará sendo também a mais poderosa?”.

Geithner, como responsável pelas combalidas finanças de Tio Sam, continuava afirmando, até ontem, que os Estados Unidos não perderão nunca seu status de país absolutamente sólido e confiável em seus pagamentos. Tomara. Mas a palavra “nunca” é um perigo. Até uma agência de risco americana já concluíra, dias antes, que os EUA perigam perder sua “nota” AAA (triplo A), pela dívida de seu governo. No linguajar do mercado, o triplo A indica um risco tão baixo de calote que o investidor nem o enxerga. Mas tem gente começando, sim, a enxergar risco, e o professor Ferguson é um deles.

A crise grega não é isolada. Ela ameaça não só a Europa, mas também os EUA e até a China

Desde o ano passado, esse problema existe e vem se agravando. O alerta foi dado com clareza no Brasil e foi, inclusive, publicado em ÉPOCA. Em reportagem sobre as projeções de avanço da dívida do governo americano, o repórter especial José Fucs citava a SR Rating, classificadora brasileira de risco da qual sou fundador e sócio. Na avaliação feita pela empresa naquele ano, os EUA já haviam perdido a condição triplo A. Agora, ficou mais claro que a recuperação da economia ianque não só vai demorar, como está atrelada a uma séria reeducação do consumidor local, que aprendeu a gastar sem limite e sem medo, pois fez isso por tempo demais, sem que freio algum lhe fosse aplicado pelo próprio mercado ou por autoridades atentas.

Niall Ferguson está tragicamente correto. Quando então avaliamos o risco americano, no começo da crise que ainda agora se desdobra, era previsível a dificuldade prolongada, por dois motivos cumulativos. Primeiro, o volume espantoso de gente encalacrada em dívidas da casa própria, que passou a valer muito menos do que a hipoteca devida aos bancos. Segundo, os bancos tampouco sabendo o que fazer com suas carteiras lotadas de dívidas não pagas e de imóveis retomados sem comprador. Mesmo problemas enormes e complexos têm solução, mas elas costumam ser difíceis de adotar e demoram para mostrar efeito. Essa é a questão intratável. Políticos que jogam sempre de olho na próxima eleição têm grande dificuldade em lidar com crises arrastadas, que devoram sua popularidade dia a dia e os fazem perder a eleição seguinte. É o drama atual de Obama.

Não há solução simples para a crise provocada pela “dívida da azeitona” – assim chamada porque, neste momento, ela parece mais localizada nos países mediterrâneos produtores desse fruto. Ela tem toda a pinta de que vai sacudir tanto o fast-food americano que serve dívida ao mundo quanto os chineses glutões que vêm abusando desse prato trash.

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