Rodrigo Constantino

Em meu último artigo tratei do lado moral da crise que os países desenvolvidos enfrentam. Algumas pessoas podem estranhar o foco, pois sou economista. Gostaria de lembrar que Adam Smith, antes de escrever sobre a riqueza das nações, escreveu “Teoria dos Sentimentos Morais”. Debater o crescimento de 1% ou 2% do PIB pode ter sua relevância; mas economia é muito mais que isso.

Eis porque retorno ao tema da crise de valores, desta vez priorizando o caso latino-americano. Se Japão, Estados Unidos e Europa passam por um declínio moral, parece que a América Latina, em especial o “eixo do mal” bolivariano, sequer experimentou uma fase de maturidade. Estamos estagnados na era do infantilismo.

É por isso que recomendo a leitura de “A sociedade que não quer crescer”, do argentino Sergio Sinay. O livro disseca os perigos do fenômeno que podemos observar facilmente no Brasil também: adultos que se negam a ser adultos. São os “adultescentes”.

Como a Argentina parece estar em estágio mais avançado da patologia, os alertas de Sinay tornam-se ainda mais importantes. A Argentina pode ser o Brasil amanhã, o que é uma visão assustadora. Não só porque a presidente exagera no botox, mas porque a volta ao passado populista se dá a passos largos.

O autor faz a ligação entre essa postura infantil de boa parte da população e a anomia em que vive seu país, cada vez mais bagunçado e autoritário. É o que acontece quando os adultos preferem agir como adolescentes, no afã de postergar ao máximo a velhice.

O comunismo foi o sonho adolescente de intelectuais que pariu o pesadelo real de milhões de pessoas

Maturidade exige renúncia, sacrifício, responsabilidade e compromisso. Tudo aquilo que muitos adultos modernos fogem como o diabo foge da cruz. Talvez para aplacar sua angústia existencial, esses adultos desejam permanecer jovens para sempre, e agem como tal. São colegas de seus filhos, e delegam a responsabilidade de educá-los a terceiros. Confundem seus caprichos com direitos. Nas palavras do autor:

“Uma sociedade empenhada em permanecer adolescente vive no imediatismo, na fugacidade, nas rebeliões arbitrárias que a nada conduzem, na confrontação com as regras – com qualquer regra, pelo simples fato de existirem – no risco absurdo e inconsciente, na fuga das responsabilidades, na ilusão de ideais tão imprevistos como insustentáveis, na absurda luta contra as leis da realidade que obstruem seus desejos volúveis e ilusórios, na rejeição ao compromisso e ao esforço fecundo, na busca do prazer imediato, ainda que se tenha que chegar a ele através de atalhos, na confusão intelectual, na criação e adoração de ídolos vaidosos colocados sobre pedestais sem alicerces”.

Impossível não pensar em Chávez, Morales, Corrêa, Kirchner e Lula. Ou ainda nos artistas e atletas famosos que levam vidas altamente questionáveis do ponto de vista ético, mas ainda assim viram heróis nacionais. Eis o exemplo que Sinay usa do lado argentino:

“Uma sociedade é adolescente quando carece de critérios para distinguir entre as habilidades futebolísticas de seu maior ídolo esportivo, Diego Maradona, e suas condutas irresponsáveis, sua ética duvidosa, seus valores acomodatícios; quando acredita que aquelas habilidades justificam tais ‘desvalores’ e quando, assim como um adolescente, os vê como um tributo invejável”.

Não podemos ridicularizar nossos “hermanos” nesse ponto. Basta pensar nos nossos próprios heróis. Para sair do futebol, que tal Oscar Niemeyer? Os brasileiros não souberam separar seu talento artístico do restante, e criaram a imagem de um grande humanista abnegado. Um humanista que, como já abordei nesse espaço, adorava o maior assassino de todos os tempos: Joseph Stalin.

Mas a simples constatação de que não se pode ser um grande humanista e um defensor de Stalin ou Fidel Castro ao mesmo tempo, bastou para gerar reações histéricas: “Quem você pensa que é para falar do grande mestre?”

O colunista Zuenir Ventura também reagiu: “Algumas críticas ideológicas a Oscar Niemeyer depois de morto revelam, de tão iradas, que no Brasil foi fácil acabar com o comunismo. O difícil é acabar com o anticomunismo”. Resta perguntar: e devemos acabar com a oposição a esta utopia que trucidou dezenas de milhões de inocentes?

O comunismo foi o sonho adolescente de intelectuais que pariu o pesadelo real de milhões de pessoas. Combatê-lo é um dever moral. Hoje ele se adaptou, mudou, mas ainda sobrevive como “socialismo bolivariano”, com que muitos brasileiros flertam.

Até quando vamos viver em uma sociedade adolescente, que se recusa a amadurecer e deposita no “papai” governo uma fé messiânica?

Fonte: O Globo, 22/01/2013

RELACIONADOS

Deixe um comentário

5 comments

  1. t tonucci

    Adam Smith foi um defensor apaixonado do colonialismo”que pariu o pesadelo real( e ainda pari)de bilhões de pessoas”.
    Seria “moral” combatê-lo também?

  2. apere

    Olha meu caro articulista (economista) gostei do texto, pela contudência! Já fiz parte da geração que adorava o facínora Che e seus asseclas. Aliás ainda tenho quase toda biblioteca de seus escritos. Passadas algumas décadas veio a tona a verdade sobre os regimes totalitários. Meus avós e meus pais vieram da união soviética na época crucial do stalinismo, acredito pela atrocidades, pois eram libertários. O lado bom do citado exemplo foram as suas obras arquitetônicas…

  3. Samuel

    Taí um autor que não responde os comentários…. Se gosta de falar sozinho fique em casa… A maior conclusão de Adam Smith foi: “O trabalho de um homem nunca será suficiente para as suas necessidades”. óóóóóó que legaaaaall… Annonnymous

  4. Comunicação Millenium

    Comunicação Millenium

    Prezado Samuel,
    nossos articulistas não respondem comentários, apenas colaboram com o site.

    Certos de sua compreensão,

    Cordialmente,

  5. Serguei de Figueiredo

    Sr. Constantino, a senssura é um dom deste instituto?
    obrigado pela oportunidade de espor minhas idéias, apesar de não pública-las, isso me traz um grande penssamento, a imprenssa é democrática?