Uma tarde no Complexo da Penha

Quando alguém diz que sente inveja do Complexo do Alemão por causa de tudo o que está acontecendo lá, é hora de parar e prestar atenção. Eu estava conversando com Antonio Tiburcio, diretor da Atitude Social, morador e grande ativista da Vila Cruzeiro, quando ouvi isso. Estávamos na sede da sua ONG, ao lado do famoso campo de futebol de onde saiu o jogador Adriano, e onde centenas de garotos jogam com a maior seriedade para ver se têm sorte igual.

– Mataram o Tim Lopes em 2002, — disse ele. – Pois a partir daquele momento, a Penha perdeu tudo, investimentos, voluntários, tudo o que havíamos a duras penas conquistado, e que nem era muito. Nós não tínhamos contatos, não estávamos conectados à internet, não podíamos gritar para o mundo que o crime não havia sido cometido pela comunidade. Você sabe o que é assistir a um jornal de televisão que mostra a tua vizinhança dizendo que lá só moram bandidos? Pois nós vivemos isso, e vivemos as conseqüências disso: quando vamos procurar emprego e as pessoas vêem o nosso endereço, acabou, esquece aquela vaga. Você sabe o que é sentir vergonha do seu endereço? Enquanto isso, no Alemão, que é aqui do lado, há milhões de investimentos! Até a novela “Salve Jorge” está sendo filmada lá. No nosso Complexo da Penha, nada. Não é justo, não merecemos isso, não merecemos tanto castigo.

Tiburcio, que é alegre e bem humorado, se transforma e fica visivelmente emocionado quando fala dos dez anos de ostracismo sofridos por sua comunidade. É emoção contagiosa, sobretudo para quem vem de um passeio pela Vila. Os moradores são gentis, fazem questão de receber bem quem vem de fora e manifestam esperança de que a presença do visitante seja o prenuncio de mudanças. O complexo, onde a PM acaba de substituir o exército, há um ano e meio na área, está livre de traficantes — ou, pelo menos, das gangs de traficantes armados. As lajes foram retomadas pelos garotos que soltam pipas. Há tantas delas, por sinal, que diversos motoqueiros andam com a mão no pescoço, para não serem degolados por algum cerol desgovernado.

Converso também com as diretoras de duas das cinco escolas da comunidade, Telma da Silva Teixeira, da Joracy Camargo, e Ana Paula Batista Lima, do Ciep José Carlos Brandão Monteiro. São duas heroínas, que lutam contra dificuldades que nem nos passam pela cabeça. Na época da guerra, que é como os moradores se referem aos tempos dos traficantes, as escolas foram frequentemente fechadas por causa de tiroteios; mas guerra maior, que dura até hoje e que não acaba tão cedo, é manter os alunos estudando. Muitos precisam trabalhar. É uma situação cruel, porque, inúmeras vezes, eles sequer trabalham para comprar comida, mas sim para sustentar o vício dos pais alcoólatras ou dependentes químicos. Essas são crianças que chegam com tanta fome à escola que não rendem nada antes da merenda.

Tiburcio ainda vê um longo, longuíssimo caminho pela frente

– Antigamente nós educavamos junto com as famílias, — dizem as professoras. – Hoje as crianças vêm à escola por vontade própria, e não necessariamente porque têm pais que cobram isso delas. É preciso então que as escolas daqui sejam muito atraentes, mais atraentes até do que as escolas do asfalto, mas a realidade é outra.

As diretoras fazem o que podem. Na Joracy Camargo os cadernos de empregos dos jornais são pendurados em varais, para que os pais, que não têm dinheiro para comprá-los, possam consultá-los gratuitamente. Agora, graças a uma parceria com a Ericsson e com a Vivo, que há um mês trouxe internet para a Joracy Camargo e para o Ciep, será criado um banco de empregos. Antes mesmo disso, porém, a internet já está mostrando a que veio: graças ao wi-fi, as escolas estão virando points para as famílias e, na próxima festa junina, haverá uma barraquinha para apresentar os netbooks às mães que quiserem conhece-los. E a vida das professoras, que sequer tinham telefone, e que precisavam ir a uma escola na Penha para trocar emails com a prefeitura ou requisitar merenda escolar, melhorou muito.

A parceria com a Ericsson e com a Vivo é, curiosamente, motivo de orgulho geral. Nos bairros de classe média, a presença de qualquer empresa é, na melhor das hipóteses, vista com indiferença; o excesso de outdoors e de logomarcas chega a provocar hostilidade. Na Vila Cruzeiro, contudo, os outdoors da Vivo, estrelados por pessoas da comunidade, são vistos como uma conquista. Eles são um sinal de pertencimento, a prova cabal de que a vida está entrando nos eixos.

Na sede da Atitude Social, vi várias crianças usando a web – que, até outro dia, mal conheciam. É impossível avaliar o tamanho da janela que se abre para uma criança dessas com uma simples conexão. Muitas nunca saíram da Vila Cruzeiro, e só conhecem o Pão-de-açúcar e o Corcovado da televisão. Na primeira excursão que uma das escolas promoveu a um museu, os alunos ficaram deslumbrados por estar num lugar “igualzinho ao Rio”.

Tiburcio comemora os computadores e a internet, mas ainda vê um longo, longuíssimo caminho pela frente:

– Os fuzis trocaram de lado. Antes estavam com os traficantes, hoje estão com o Bope. As crianças, porém, continuam convivendo com fuzis. O meu sonho é que a gente tenha, um dia, uma comunidade livre de fuzis.

Fonte: O Globo, 12/07/2012

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