O urso e o dragão

Quebrar a espinha-dorsal do comunismo como força geopolítica. Topo da agenda da política externa norte-americana durante a Guerra Fria.

Encontros secretos entre Kissinger e Chou-En-Lai nos anos 70 abriram avenida entre EUA e China — e esta desacoplou-se do bloco comunista.

Ante o potencial de relacionamento com o Ocidente, Pequim distanciou-se ainda mais de Moscou. Aprofundou-se o “Cisma Sino-Soviético”.

Desde então, a China embarcou num crescimento estonteante graças a seu modelo, agora em metamorfose, de Nação-Comerciante.

A Rússia perambulou entre a memória de seu status como superpotência político-militar e a promessa — não cumprida — de prosperidade sustentada em formidáveis recursos humanos e energéticos.

Constrangido no Ocidente pela mão pesada na Ucrânia, Putin saudou o relacionamento com Pequim como “prioridade incondicional da política externa russa”

Hoje, os dois gigantes voltam a aninhar-se. Para dissabor dos EUA, foi a Moscou que Xi Jinping fez sua primeira visita ao exterior como premiê.

Nesta semana, Putin foi recebido na China como czar. Xangai foi fechada, aulas canceladas e feriado decretado para a visita do titular do Kremlin.

Constrangido no Ocidente pela mão pesada na Ucrânia, Putin saudou o relacionamento com Pequim como “prioridade incondicional da política externa russa”. Acrescentou: elos com a China encontram-se no “nível mais elevado da História”.

Os chineses aproveitaram as novas limitações russas no comércio com o Ocidente para barganhar num acordo de fornecimento de gás que se arrastava há 10 anos.

O negócio alcança US$ 400 bilhões. Foi concluído às pressas para que Gazprom e CNPC, megacorporações energéticas, o assinassem perante Putin e Xi Jinping.

Pequim e Moscou realizam manobras navais conjuntas. O comércio bilateral saltará dos atuais US$ 90 bilhões para US$ 200 bilhões em 10 anos.

Nos EUA, ninguém parece entender o que está acontecendo. Think-tanks como o Council on Foreign Relations e o Chicago Council on Global Affairs colocam os EUA no divã.

Promovem “auto-análise” que opõe, de um lado, visão de política externa orientada pela opinião pública. Esta não quer encarar o preço da onipresença dos EUA.

Do outro, consolida-se a percepção nos setores mais treinados em assuntos globais de que esses movimentos da Eurásia fazem “renascer a geopolítica”. Pregam reengajamento dos EUA mediante novo — e caríssimo — orçamento para relações exteriores e defesa.

Ganha corpo também, no mundo corporativo, a ideia de que sanções impostas a Putin criam “reserva de mercado” para potências não-ocidentais multiplicarem transações com a Rússia.

A política “principista” de Washington repetiria erros do tratamento dado a Cuba. Daí, o pior de três mundos. Afastamento no diálogo político, surgimento de projetos geoestratégicos alternativos e definhamento das relações econômicas.

Moscou reconforta-se na parceria chinesa. Pequim compraz-se ao ver os EUA rodopiarem na arena global feito barata tonta.

O Brasil, inocente, não pode vislumbrar no dueto urso-dragão idílio terceiro-mundista. São apenas dois monstros calculistas bailando à fria melodia de seus próprios interesses.

Fonte: Folha de S.Paulo, 23/05/2014.

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