Usina de alto risco

COM ABEL HOLTZ

Nunca antes na história deste país um projeto de interesse da nossa sociedade foi motivo para gerar tanta inspiração para a desordem lógica de sua implantação quanto o programa da hidrelétrica de Belo Monte. Estudado há mais de trinta anos, veio a ser inscrito no PAC para tornar-se a sua “joia da coroa” no âmbito do setor elétrico. Tanta inspiração despertou até no cineasta canadense Cameron, o gênio do “Avatar”, que prima pela visão holística, a vontade de ir ao Xingu, para conhecê-lo.

Além de cineastas, o projeto despertou interesse de construtoras, fornecedores, seguradoras e do sistema financeiro em todo o mundo, porque se situa na Região Amazônica e é alardeado como o terceiro mais importante projeto de geração hidrelétrica no mundo (11.600 MW de capacidade instalada), com escavações que ultrapassam aquelas realizadas no Canal do Panamá, e que deslocará para a região populações que beirariam os 100 mil trabalhadores, com compensações ambientais que ultrapassam os 10% do investimento programado etc…

O que de fato não está sendo levado em conta, e aí talvez resida a razão de desistências de interessados experientes, é que a hidrelétrica terá capacidade instalada de 11.600 MW, mas os seus investidores só poderão comercializar 4.400 MW médios durante cada ano. E a sua construção demandará uma logística especial e única.

Registre-se que a Eletrobrás menciona que as vazões do Xingu, no trecho onde será construída a usina, têm uma média de 19.816 metros cúbicos de água por segundo nos meses de abril a setembro. A partir daí, o fluxo cai para 1.065 metros cúbicos por segundo — uma redução de 94%. O fator de capacidade de Belo Monte é de aproximadamente 0,44 — inferior à média das hidrelétricas atuais, entre 0,50 e 0,60.

No período seco da bacia do rio serão gerados algo como 2.800 MW médios.

Significa dizer que, durante este período, os investidores terão que comprar de outras geradoras 1.600 MW médios, para atender seus contratos de venda de energia. Um custo adicional àqueles necessários ao investimento. É certo que a compra será pelo preço do Mecanismo de Realocação de Energia.

Quando o rio estiver no período de cheia, a hidrelétrica estará operando com todas suas máquinas gerando e entregando ao sistema quase o mesmo montante de MW médios que estará autorizada a comercializar, recebendo pelo mesmo MRE uma receita que não impactará no equilíbrio econômico-financeiro do projeto.

Esta lógica da geração define receitas que devem ser propiciadas pela energia gerada para fazer frente aos custos ambientais, construção de barragens e canais, máquinas, pessoal, seguros, custos financeiros dos empréstimos, operação da usina quando pronta, transmissão da energia produzida ao ponto de conexão e resultados aos seus acionistas. Somente para dar uma dimensão a envergadura dos compromissos do empreendedor: a garantia de fiel cumprimento do contrato será de R$ 1,045 bilhão.

Além disso, a rejeição ao empreendimento, de ambientalistas e populações locais que se acham agredidas, deverá causar obstruções ao bom curso da sua implantação, com custos adicionais imprevisíveis — e possivelmente multas pelo atraso no cronograma de geração.

E, ainda, o que é pior, a compra de energia ao Preço de Mercado de Curto Prazo.

A referência desse preço é impossível de antecipar, mas os especialistas no tema indicam que deverá ser da ordem de R$ 120,00 /MWh, significando para o investidor um prejuízo de mais de 40% em relação ao valor que estará recebendo dos contratos que vier a ter.

Se considerarmos que a Eletrobrás, através de uma das suas empresas, poderá ficar com 40 a 49% do empreendimento, e que cerca de 10% da energia serão destinados a consumidores livres, restará aos investidores não consumidores de 41% a 50% para estabelecer a viabilidade econômicofinanceira da sua participação. Seguramente a tarifa calibrada como referência, de R$ 83,00/MWh, não permite a receita para fazer frente aos custos e as taxas de retorno para um empreendimento de alto risco, incluindo os geológicos, que somente serão amealhadas após 12 a 15 anos de operação da hidrelétrica.

Vamos torcer para que o governo, no afã de proteger e afagar a mãe do PAC, não acabe construindo uma solução penosa ao contribuinte e ao país.

Fonte: Jornal “O Globo” – 27/04/2010

 

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