Sábado, 10 de dezembro de 2016
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Não se estatiza inovação

Vale do Silício pode ensinar a Dilma que não se estatiza inovação

Na viagem que faz aos EUA na semana que vem, além de encontros com investidores em Nova York e Barack Obama na Casa Branca, Dilma incluirá no itinerário uma ida a São Francisco.

Compromissos em universidades de ponta como Stanford e Berkeley e conversas com líderes de empresas de alta tecnologia estão na agenda. Eventualmente, anuncia-se que ela visitará a sede do Google, em Mountain View. O que significa Dilma no Vale do Silício?

Numa primeira análise trata-se de louvável iniciativa. A alta densidade de conhecimentos, tecnologias e patentes gestados naquele parte do mundo não encontra paralelo. Há um bocado para aprender e com que se inspirar.

Muitas regiões em outros países, como Silicon Wadi (Israel), Zhongguancun (China), Skolkovo (Rússia) e mesmo Bangalore (Índia), modelam-se de alguma forma no Vale do Silício.

Há uma imediata relação entre aquela região e a própria história da computação. O silício, essencial à fabricação de microprocessadores, facilitou uma natural aglomeração de indústrias de tecnologias da informação naquelas cercanias.

A importância de tal insumo na evolução dos computadores não é, contudo, a mais determinante razão do Vale do Silício ter se tornado o principal hub tecnológico do mundo. A chave para entender o êxito de tal região tem nome: planejamento estratégico. E muitos veem nisso o acerto de se atribuir um caráter “empreendedor” às funções de governo no campo da inovação.

A experiência histórica demonstra que o governo dos Estados Unidos desempenhou, sim, fundamental papel no aparecimento, consolidação e florescimento tecnológico do Vale do Silício. Na mesma medida, governos na Coreia do Sul, China ou Cingapura também jogam pesado – e tem triunfado – no desafio da inovação.

Isso supostamente legitimaria a adoção de políticas que viessem a combinar graus variados – e intensos – de reserva de mercado, crédito privilegiado ao empreendimento tecnológico, escolha de setores industriais “campeões” e volumosos subsídios a certos tipos de tecnologias ou empresas.

Boa síntese dessa posição de mais “ingerência” de instâncias governamentais no processo inovador encontra-se no trabalho de Mariana Mazzucato, professora da Universidade de Sussex, na Inglaterra.

Seu recém-lançado livro, “O Estado Empreendedor – desmascarando o mito do setor público vs. o setor privado” (editora Portfolio Penguin; R$ 44,90), parece, à primeira vista, cair como uma luva ao que os governos Lula e Dilma interpretaram e praticaram como misto de política industrial e tecnológica.

Muitos dos protagonistas da cena governamental desde 2003 certamente desejam alicerçar suas posições protecionistas e estatizantes na obra da professora. Da mesma forma, outros buscaram legitimação das políticas de alívio à pobreza (e não de desenvolvimento social) no trabalho de Piketty sobre a tendência à desigualdade de renda no capitalismo ocidental.

Aliás, Mazzucato foi recebida no Palácio do Planalto no mês passado com pompa e circunstância. Sua conversa com Dilma durou três horas. Na saída, direito à entrevista coletiva com o titular do Ministério da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo.

Provavelmente, a professora não sabia que, em plenos anos 1990, em meio à devastadora revolução da internet, Rebelo, na condição de deputado federal, propusera lei que impediria a adoção por qualquer órgão público de inovação tecnológica que fosse poupadora de mão de obra.

O episódio explica muito por que, quando se fala em “papel do Estado” na inovação, não se pode generalizar como se a esfera estatal fosse um ser uniforme – em conteúdo, motivações, modus operandi e objetivos –, não obstante as diferentes realidades de cada país.

Se é verdade que nos EUA se disponibilizam imensos recursos públicos para financiar a ciência básica, a maior parte da inovação se dá no âmbito privado.

A discussão deveria centrar-se menos em como o governo pode ajudar a inovação, e mais em como ele a atrapalha

Edward Jung, ex-arquiteto-chefe da Microsoft, explica bem o ponto. O governo dos EUA criou, desde os anos 1950, uma “montanha de demanda” por inovação tecnológica, sobretudo a partir de orçamentos militares ou espaciais.

Como não existem empresas estatais nos EUA, uma vez gerada a tecnologia em resposta à demanda estatal, as companhias transformam aquele conhecimento em “tecnologias colaterais” aplicáveis aos mercados civis.

Curiosamente, este modelo, não necessariamente centrado em orçamentos militares, também tem sido amplamente utilizado nos países asiáticos de maior inovação na Ásia. É dizer, não é por que há um papel para o Estado que o processo de inovação deva ser estatizado, como muitas vezes se acredita tanto em universidades quanto em órgãos governamentais brasileiros.

Há, no entanto, muitos outros parâmetros que vão além da experiência de inovação do Vale do Silício. Planejamento estratégico tem de vir acompanhado de marcos institucionais e atitudes que convidem à inovação.

Além disso, o volume de recursos importa. Os EUA destinam 3% de seu PIB à pesquisa & desenvolvimento; o Brasil, 1%. A carga tributária norte-americana é 28% de seu produto, no Brasil, dez pontos percentuais acima. Sobram portanto muito mais recursos para as empresas nos EUA apostarem em inovação.

Nos Estados Unidos, as instituições de ensino mantêm plena interação com empresas. No Brasil, as universidades públicas em sua maioria querem distância do setor privado. A mentalidade estatista é um grande obstáculo à inovação, basta examinar os abundantes exemplos da União Soviética, onde se produzia excelente ciência, foguetes eram enviados ao espaço, mas não se conseguia fabricar um forno de micro-ondas.

Um dos principais ensinamentos que Dilma poderia trazer de sua visita ao Vale do Silício é que planejamento estratégico tem de vir acompanhado de marcos institucionais e atitudes que convidem à inovação.

Ao aplicar tais princípios à realidade brasileira, a discussão deveria centrar-se menos em como o governo pode ajudar a inovação, e mais em como ele a atrapalha.

Fonte: Folha de S. Paulo, 24/6/2015

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