A eleição do próximo domingo encerrará a era Lula e nos dirá o que seremos nos próximos dez ou 20 anos. Desde 1981, o Brasil perdeu muito tempo e muitas oportunidades. Nesse entretempo, democratizamos a escolha dos governantes, mas não tornamos mais eficiente o modo de governar. O país investe pouco e gasta demais. É especialmente ineficiente no setor público. Até 2030, poderíamos triplicar a renda das famílias e reduzir dramaticamente a pobreza e a ignorância. Poderíamos.

Se tivermos sucesso, vamos incorporar um Brasil “a mais” a nosso crescimento vegetativo. Mas uma revolução na mentalidade de governar teria de acontecer a partir de 2011. Daí a importância do voto, capaz de promover mudança para valer. Na longa noite econômica de 1981 a 2005, a taxa de crescimento não passou de 2,2% ao ano, tragédia para uma nação que, nesse mesmo período, alcançou mais de 80% de urbanização – taxa maior que a de Rússia, Índia e China, os outros Brics –, requerendo milhões de novos empregos nas cidades para incorporar as gerações de jovens que vêm por aí. Falo de um Brasil que evitou quanto pôde a transformação de sua estrutura produtiva e social. E como continuamos a resistir!

Em compensação, fomos muito hábeis em nos agarrar à sorte, quando a onda global de altos preços das matérias-primas bateu em nossa praia. Esse único fato alterou de modo radical e veloz o panorama de relativo desinteresse do mundo sobre o Brasil. É só lembrar quão poucos tinham curiosidade de ouvir os depoimentos de Mr. Lula da Silva em Davos, Washington ou Pequim. A virada tem a ver com o estrondoso recuo das economias centrais, antecipando a previsão de gradual engrandecimento dos Brics nos próximos 20 anos. Com a crise mundial, as grandes economias se apequenaram, enquanto a multiplicação de nossa renda de exportações, obtida com a venda de minérios e produtos agrícolas, fez o Brasil despontar, sem precisar realizar nada excepcional. Lucramos com a desgraça generalizada.

Melhor para nós. Contudo, não devemos confundir circunstância com constância. Estou fortemente impressionado com os poderes extraterrestres de Lula, visto ter sido em sua gestão que os preços de nossas mercadorias primárias passaram a alcançar valores estratosféricos. Mas até quando? Por tal dedução metafísica, a saída de Lula rebaixaria os altos preços das matérias-primas para o lugar de sempre, escancarando o buraco que já aparece em nossas contas externas. Se o cenário ficar adverso entre 2011 e 2014, o país precisará de muito mais eficiência na gestão pública para manter e expandir os ganhos de renda da era Lula. Como o mundo continua dançando sobre o abismo, o mínimo bom-senso exigiria que o Brasil elegesse, em 3 de outubro, alguém afinado(a) com a gestão de surpresas e desafios novos.

Outros países caíram em desgraça e o que vendemos ficou mais caro. Bom. Mas o quadro pode piorar em 2011

Ressalto que não projeto uma nova crise por pessimismo, e sim por velhice, já que acompanhei os 30 anos passados de penúria nacional, quando nossas lideranças políticas e intelectuais resistiam a combater a inflação, quando se opunham a tornar flexível a taxa cambial, quando se negavam a entender o conceito de equilíbrio orçamentário, quando se enfureciam com a mera ideia de privatizar empresas estatais, quando repetiam que a Previdência Social não gerava déficits e por aí afora. Essa ladainha ainda se repete pelos corredores da Brasília atual, tão cheia de soberba e afluência fiscal, do alto dos 40% do PIB, em carga de tributos, tomados do bolso de cada brasileiro.

Confundir a potência do Brasil com a prepotência do momento político atual pode ser muito perigoso para nossa saúde financeira, se e quando a maré virar. Pena que uma visão de cenários futuros não apareceu com clareza nesse empobrecido debate pré-eleitoral. Votaremos com o espelho retrovisor? Por minhas contas, esse Brasil “a mais” que está em jogo, na hora do voto, valerá, em 2030, uma renda anual de R$ 30 mil adicionais para cada eleitor. Sem saber, votaremos numa mega-sena.

Fonte: Revista “Época” – 23/09/10

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